O Mundo a Tinta-da-China

Este blog é dedicado aos livros e à cultura. É feito de opiniões e não de sentenças, e deve ser lido sem preconceitos. A maior parte dos artigos foram ou serão publicados no jornal Metro. Todos os textos são da autoria de Luís Mateus, editor do jornal desportivo Maisfutebol. Esta abordagem aos livros é apenas mais uma leitura do que se lê em Portugal.

Quinta-feira, Fevereiro 2

Sugestões de leituras

“O Arconte”, de Catherine Fisher (Presença)
Já é Alexos, o verdeiro dono, quem se senta no trono do Arconte. Mas, apesar de terem respeitado o desejo do deus, a sacerdotisa Mirany e os seus amigos ainda não conseguiram derrubar o poder do corrupto e ambicioso General Armelin. A única esperança é devolverem a água à cidade. No entanto, há uma longa e perigosa viagem que tem de ser feita para que isso aconteça. “O Arconte” é o segundo volume da trilogia que nasceu com “O Oráculo”. Apesar de todos os julgamentos só poderem ser definitivos com o terceiro livro, Catherine Fisher já conseguiu escrever dois volumes de grande força e dimensão.

“As Quatro Vidas do Salgueiro”, de Shan Sa (Casa das Letras)
Quatro novelas. Os primeiros amores, as primeiras revoltas, as primeiras traições. Na China, o salgueiro-chorão simboliza a morte e o renascimento. Conhecida pelas folhas caídas, a árvore chora e a obra de Shan Sa, autora de “Imperatriz” e de “A Porta da Paz Celeste”, está impregnada de toda essa tristeza. Ao longo dos tempos, o salgueiro acompanha a história das personagens. Vive com elas os dramas e as desilusões. Reage aos destinos. Envelhece. “As Quatro Vidas do Salgueiro” é um livro doce e melancólico de uma das mais importantes escritoras chinesas da actualidade.


“A Tempestade”
, de Juan Manuel de Prada (Âmbar)
Um professor de arte chega a Veneza para estudar o quadro “A Tempestade”, de Giorgione. Nessa mesma noite, presencia um assassinato e vê um desconhecido morrer nos seus braços. Interrogado pela polícia, Alexandre vê-se, aos poucos e poucos, envolvido nas investigações para descobrir o assassino. Conhece o director do museu onde o quadro se encontra e apaixona-se pela filha. A sua visão da arte e da vida vai acabar por mudar fruto dessa relação. Prémio Planeta, Juan Manuel Prada traz-nos aqui um livro entretido e muito bem escrito.

“Beatles”, de Lars Saabye Christensen (Cavalo de Ferro)
Crescer ao som dos Beatles. Esta é a história de Kim Karlsen e de mais três amigos: Gunnar, Ola e Seb. Na Primavera de 1965, sente-se na Noruega a primeira onda da “Beatlemania”. E os quatro não fogem à regra. São grandes fãs e vêem-se às vezes na pele dos elementos da banda. Apesar da presença da música em toda a parte, incluindo o nome dos capítulos, o livro de Lars Saabye Christensen vai mais além. Há mais na vida do que uma sucessão de acordes. E a adolescência vem sempre acompanhada de um mar de problemas e dificuldades, sobretudo para um grupo de miúdos tão ingénuos que nunca traçaram objectivos a longo prazo. Uma boa leitura.

Viver quanto todos os outros dormem

Uma caixa de fósforos, uma lareira e um mundo para se viver às quatro da manhã. Um editor de livros de medicina está acordado quando todos os outros dormem para poder absorver a vida. “A Caixa de Fósforos” (Quetzal, 2005) é um livro sem trama, um conjunto de 33 cartas endereçadas a alguém não identificado, talvez a todos os leitores. É um livro filosófico que se lê como romance.

Emmett tem uma mulher, dois filhos, um gato e um pato. Levanta-se todas as noites antes do nascer do sol, faz café e senta-se a olhar para a lenha a queimar, porque quer descobrir o significa existir. O talento de Nicholson Baker, autor de “Mezzanine”, ao descrever e celebrar a vida conseguiria convencer até a sua personagem principal, um homem que atravessa a crise da meia-idade e tem tendências suicidas. Pena é que o pato seja mais influente na história que a próxima família. Mas, mesmo assim, o resultado é um excelente exercício.

Todos gostaríamos de ser como Emmett: ter tempo para nos perder nos nossos próprios pensamentos, analisar tudo o que nos acontece diariamente. E, à medida que se viram as páginas, vamos acenando com a cabeça a tudo o que ele nos quer transmitir. Passamos todo o livro assim. Entramos na sua pele porque não podemos acordar todos os dias de madrugada.

O resultado é um livro que nos fica na cabeça.

Não tem nada para fazer ao Sábado?

Ian McEwan trouxe-nos, em 2005, uma das melhores obras do ano. “Sábado” é um livro sobre a mente humana.

“O avião sobrevoa a copa das árvores. Por instantes, o fogo lampeja festivamente por entre os ramos. De repente, Perowne lembra-se de que talvez devesse fazer alguma coisa.” É de madrugada e o neurocirurgião veio à janela porque não conseguia dormir. Daí a poucas horas, haverá uma grande manifestação contra a guerra no Iraque. Vêm-lhe à memória os atentados de 11 de Setembro. A mulher dorme tranquilamente. Henry Perowne apercebe-se de que o avião se dirige para o aeroporto de Heathrow.

Um acontecimento chocante abre a obra mais recente de Ian McEwan. Aí “Sábado” (Gradiva, 2005) não é muito diferente de “A Criança no Tempo” - uma criança é agarrada e desaparece - ou de “O Fardo de Amor” - um balão de hélio cai. Mas, desta vez, a narrativa resume-se a 24 horas, o dia 15 de Fevereiro de 2003, um sábado. Tudo acontece entre a madrugada em que vê o avião a descer e a seguinte, em que recupera mentalmente tudo o que lhe aconteceu. Não se passam décadas como em «Expiação», o livro que é considerado a sua obra-prima. Porque, afinal, num dia também pode acontecer muita coisa. E, desta vez, a figura central não é uma criança com vocação de romancista, mas um médico que não gosta de ler livros de ficção. As personagens imaginadas por Ian McEwan nunca são iguais.

A acção roda toda à volta de Perowne. É verdade que não vive sozinho. É casado com a advogada de um jornal e tem dois filhos: o músico Theo e a poetisa Daisy. Mas são praticamente ornamentais. Apenas «existem» numa única cena, um jantar familiar que comemora a edição do primeiro livro de Daisy.

Henry é neurocirurgião e adora corrigir os cérebros das pessoas. Vê para lá do crânio autênticas obras de arte. É ao exercer a sua profissão que conhece um professor iraquiano torturado pelos homens de Saddam. O encontro torna-o quase favorável à guerra iminente e contra as explicações simplistas daqueles que a querem impedir. Um acidente de automóvel leva-o a usar a sua experiência para se livrar da fúria de Baxter, um marginal com uma doença incurável. Voltariam a encontrar-se da pior maneira. Depois de assistir à humilhação de toda a família, Perowne apercebe-se de que um simples poema conseguira alterar o equilíbrio de forças. Baxter fica entre a vida e a morte. E o médico tem mais uma missão.

A escrita de Ian McEwan é exacta e complexa, capaz de nos deixar em suspenso e de, ao mesmo tempo, reflectir com ela. “Sábado” é um livro sobre a mente humana. Um dos melhores de 2005.

Quarta-feira, Dezembro 28

Aviso

Este blog foi criado apenas hoje, mas já existia noutro endereço. Por isso, tudo o que foi publicado nessa altura foi publicado aqui com a data de hoje. Espero manter a partir de agora uma actualização mais frequente deste blog. Obrigado,

Luís Mateus

Entrevista a Jung Chang: «Mao ia sentir que o tinham finalmente percebido»

“Mao – A História Desconhecida” (Bertrand/Círculo de Leitores) é o regresso de Jung Chang aos livros, depois do estrondoso sucesso de “Cisnes Selvagens”. Uma investigação de mais de dez anos, que contou com a ajuda do historiador e marido Jon Halliday, sobre a vida de Mao Tse-Tung, o antigo líder comunista chinês. A chinesa está muito contente com o que traz de novo à história do seu país. Revelações surpreendentes trazidas ao mundo por uma verdadeira contadora de histórias.

- Qual é o principal objectivo deste livro?

- Sou escritora, quero escrever livros. Quando acabei “Cisnes Selvagens” quis escrever este livro. Mao parecia ser o tema provável. Parecia natural ser o próximo assunto. Dominou a minha vida e a da minha família. O meu coração estava orientado para aí. Depois, escrevi o livro e descobri tanta coisa... Espero que seja lido por muitas pessoas para que conheçam realmente quem ele foi. Na China, ainda se idolatra Mao. A China de hoje deve conhecer o que foi a China do passado.

- Sentiu que havia um capítulo ou volume por preencher na história chinesa?

- Definitivamente. A habitual descrição de Mao não explica muitas coisas. Porquê a fome? Por que morreram dezenas de milhar de pessoas entre 1958 e 1961? Por que existiu a Revolução Cultural? Por que Mao destruiu o seu próprio partido? Havia tantas coisas a responder e penso que o conseguimos.

- Da mesma forma que os músicos escrevem canções de protesto sente que este é um livro de protesto?

- É uma pergunta interessante [risos]. Este livro não é um panfleto, um catálogo dos crimes cometidos por Mao. Não pretende mostrar os números como simples números, a frio. Este livro tem paixão. Sinto paixão pela China. Sinto-me indignada com Mao pelo que fez à China...

- Então, é um livro de protesto…

- Não... [risos] Este livro decifrou muitos enigmas, muitos mistérios da história chinesa. Dá uma resposta satisfatória a muitos puzzles. É um trabalho de detective, não um trabalho de protesto.

- Trata-se de um segundo capítulo de “Cisnes Selvagens”?

- Acho que é uma continuação natural.

- Tem a consciência de que provavelmente serão poucos os chineses que vão ler este livro? E dez anos é muito tempo, sentiu alguma vez que todo o seu esforço não valia a pena?

- Estou agora a traduzir este livro para chinês para que seja publicado em Taiwan. A China não pode verificar todas as malas de viagem... Estou convencida de que muitos chineses vão ler este livro. “Cisnes Selvagens” também foi banido na China e muitas cópias chegaram aos chineses. Havia inclusive duas delas pirateadas. Toda a gente está interessada em saber mais sobre Mao, até mesmo longe do meu país. Nos outros onde já foi publicado foi best-seller. Isso mostra que gerou grande interesse. Por isso, sempre achei que valia a pena. Vale sempre a pena.

- Acha que quem ler o livro vai mudar a ideia que tem sobre Mao?

- Definitivamente. É um livro muito documentado, tem muitas notas e vai fazer sentido para muitas pessoas. Explica muitas coisas, como por exemplo: por que Mao iniciou a Revolução Cultural, por que destruiu o próprio partido, ou por que odiou o número 2 do Partido, Liu Shao-chi, e o levou a uma morte terrível? Encontrámos a explicação. Em 1949, quando tomou o poder, quis criar uma superpotência militar que dominasse o mundo. Importou tecnologia nuclear da Rússia e pagou-a com alimentos. Dezenas de milhar de chineses morreram, mas Mao não queria parar. Liu era um homem duro, mas mesmo ele estava aterrorizado com a fome. Em 1962, fez uma emboscada a Mao na Conferência dos Sete Mil, que reunia os principais membros do Partido. Mao foi obrigado a mudar a sua política, mas passou a odiar quem estava contra ele. A Revolução Cultural é o princípio da vingança, uma grande purga, que pretendia substituir os seus inimigos políticos por outros mais manipuláveis.

- O que fez com que Mao falhasse na sua intenção de tentar dominar o mundo?

- Mao teve muitas coisas contra a sua ambição. Não era um bom economista. Em 1958, precisava de aço e a China não o tinha. Ordenou à população para o fundir. Eu tinha seis anos e lembro-me de cozer aço na cozinha da escola. Isto afectou a qualidade da indústria chinesa. O pouco que se conseguia obter era de muito má qualidade. Mao sabotou-se a si mesmo. Queria a tecnologia russa, mas ao mesmo tempo também queria ser o maior líder comunista. Separou-se de Krushev quando pensava que já tinha o suficiente. Mas não tinha. Queria ainda a tecnologia ocidental, mas não a sua influência. Tudo isso minou o regime. Até na Agricultura se deu mal. Mandou que os chineses matassem pardais, porque comiam as colheitas. Chegávamos a bater em tudo o que tínhamos por perto para assustá-los. Mas o resultado é que sem pardais os insectos aumentaram. Transformaram-se em pestes.

- Mao podia ter sido um novo Hitler?

- Mao queria dominar o mundo, mas não tinha qualquer programa de genocídio. Mas sim, ia estabelecer a tirania...

- Mas mesmo assim podia não ter sido o que foi, uma vez que foi ajudado pelos próprios inimigos, como na Longa Marcha...

- É verdade. Podia nunca ter tido tanto poder. Mao não queria saber da família, o que era invulgar para um chinês e também para um governante, que quer sempre ter descendentes. Mas nessa altura o líder nacionalista, Chiang Kai-chek - que neste aspecto era bem diferente de Mao -, tinha o filho herdeiro preso na Rússia de Estaline e chegou a um acordo com Mao, deixando passar o seu Exército para o Norte. Foi um momento decisivo para ele.

- O seu pai foi um dos primeiros a criticar o regime de Mao, como descreve em «Cisnes Selvagens»...

- Sim, o meu pai protestou contra a Revolução Cultural e a violência desses dias. Foi preso, torturado, levado à loucura, exilado para um campo de prisioneiros. Teve uma morte muito dolorosa. Posso olhar para além do meu pai para o resto dos chineses. O meu pai foi, apesar de tudo um privilegiado. Eu fui uma privilegiada. Estudei em boas escolas, cheguei à universidade, fui a primeira a sair da região onde nasci, Sichuan, que tem 19 milhões de habitantes, para o Ocidente. Os camponeses sofreram muito, o meu coração foi invadido de indignação e sofrimento.

- Os seus pais foram membros do Partido, você esteve na Guarda Vermelha. Acreditaram no comunismo. Acha que é possível existir um verdadeiro regime comunista na China?

- A Guarda Vermelha não era como as outras instituições comunistas. Todos os jovens, como eu aos 14 anos, faziam parte dela. Era um grupo sem uma estrutura política rígida, de jovens. Não penso que o comunismo tenha sido uma coisa boa. Percebo por que o meu pai se juntou e ficou no Partido Comunista. Os jovens estavam dedicados à luta contra os japoneses. Mas quando chegaram a Yenan, onde Mao punha inicialmente em prática o comunismo, viram que era uma ilusão. Não havia igualdade. Mao dizia que era coisa de burgueses. Aterrorizou todas as pessoas. Yenan foi fechado ao mundo exterior. Acho que se fosse permitido sair do Partido, o meu pai teria saído. Nunca fui comunista. Não havia escolha a não ser ver Mao como Deus. O comunismo nunca deu certo em lado nenhum. Temos ainda de encontrar um verdadeiro regime comunista, porque ainda não existe. Todos os que tentaram sê-lo falharam. Acho que o comunista só consegue existir no papel.

- Sentiu alguma vez, nestes mais de 10 anos de investigação, que a sua vida estava em perigo?

- Quando fazia a pesquisa, não. Agora que escrevi o livro não sei. Nunca se sabe. O pensamento é dos últimos da minha cabeça. Tento viver a vida normalmente, mas nunca se sabe.

- A sua escrita sugere que é uma contadora de histórias, mas os dois livros são históricos e biográficos. Vai alguma vez escrever ficção?

- Não sei. Estou muito contente com este livro. Tem ainda essa parte de contadora de histórias de “Cisnes Selvagens”. É fácil porque Mao é uma figura com muitas histórias, mas ao mesmo tempo difícil porque há factos históricos e descobertas que têm de ser introduzidos no relato. Acho que passámos dois anos só a tentar que ficasse bem. Passei muito tempo para fazer este livro, talvez um dia escreva ficção. Agora, vou tirar umas longas férias. E prometo que não vou passar dez anos a escrever o próximo livro.

- O que acha que Mao sentiria se lesse este livro?

- Talvez sentisse admiração [risos]. Mao tinha a mente sempre a cem à hora, só conseguia dormir com um dose elevada de comprimidos, que mataria uma pessoa normal. Mao fez com que fosse muito difícil percebê-lo, criou mitos, decepções. Se tivesse lido este livro, talvez tivesse sentido que finalmente o tinham percebido [risos].

Sugestões de leituras (livros de 2005)

“A Misteriosa Chama da Rainha Loana”, de Umberto Eco (Difel)

Yambo é alfarrabista em Milão, Itália. Um AVC atira-o para o coma e depois para a perda parcial de memória: a relacionada com os sentimentos. Não reconhece os filhos e a mulher, e os antigos romances, mas lembra-se da história, do que aconteceu à sua volta desde criança. Na casa de campo onde passou a infância, embarca numa viagem pelo tempo esquecido, ajudado pelos livros, banda desenhada e música. Aos poucos, a figura de uma rapariga, que não reconhece ao início, vai surgindo do nevoeiro. Uma paixão, sublinhada por cartas da sua autoria, a primeira da sua vida. Que nunca soube dos seus sentimentos e partiu para a América do Sul antes que lho dissesse. Hipertenso, um novo AVC coloca-o às portas da morte. Para reencontrar a pessoa que amou e que, descobre depois, morreu pouco depois. Umberto Eco traz-nos um excelente romance, ilustrado com as imagens que ajudam Yambo a recuperar parte de si, que nos reintroduz na Itália dos tempos de Mussolini.

“Sábado”, de Ian McEwan (Gradiva)

Um dia na vida de um neurocirurgião habitado a operar no misterioso cérebro humano: 15 de Fevereiro de 2003. Dia em que o povo americano protestou em massa contra a guerra no Iraque. Quando se dirige para o habitual jogo de squash, Henry Perowned envolve-se num acidente de automóvel e repara que um dos jovens do outro veículo apresenta sérias perturbações psíquicas. Com a sua experiência, ganha de novo o controlo do carro e pode partir em paz. À hora de jantar, Baxter volta a contactá-lo. “Sábado” é o último romance de um dos nomes maiores da literatura contemporânea. Uma obra que não reuniu consenso entre os críticos, Mas que tem o melhor de McEwan: a exactidão e complexidade da linguagem, o mistério e a capacidade de reflexão. A ler, sem dúvida.

“Ladrão de Fogo”, de Pedro Paixão (PrimeBooks)

“Casei, tive um filho, divorciei-me várias vezes. A minha primeira mulher era perita em explosivos. Dava aulas mensais a um grupo de intervenção da Guarda Nacional Republicana. Nunca entrava num carro sem verificar se não estaria armadilhado. Adorava-a. Descascava pêssegos que lhe punha na boca aos pedaços. Fugiu passados quatro meses com o antigo namorado. Deixou-me destroçado, o coração enlouquecido”. O autor de “A Noiva Judia”, “Nos Teus Braços Morreríamos” e “Viver Todos os Dias Cansa” publica o 17º livro, desta vez com a chancela da PrimeBooks. Pedro Paixão, nome muito em voga durante a década de 90, nunca conseguiu o sucesso que outros grandes nomes da literatura portuguesa tiveram. Porque faz parte daquele grupo de escritores que se gosta ou detesta, se lê nas omissões ou não se percebe. E que escreve com a alma.

“Goa ou o Guardião da Aurora”, de Richard Zimler (Gótica)

Século XVI, Goa, Índia, ainda Portugal. Bruxos que não o eram, apenas nativos e judeus com os seus costumes, e a perseguição da Inquisição. Uma família luso-judaica – o escritor torna personagens centrais elementos de mais uma geração da família Zarco, também presente noutros livros - e a cozinheira hindu vivem felizes até ao dia em que são acusados pela Igreja. O norte-americano Richard Zimler, professor na Universidade do Porto, prossegue na sua saga de dar voz a quem não a tem ou, neste caso, a quem não a teve. E com um rigor histórico notável para quem há uns anos conhecia muito pouco da realidade judaica portuguesa. “Goa ou o Guardião da Aurora”, quase 350 páginas de puro talento para contar histórias.

“Stasiland”, de Anna Funder (Civilização)

“O Grande Irmão” de George Orwell, em “1984”, transportado para o microclima do lado de lá do muro de Berlim. Anna Funder torna imortais histórias fantásticas sobre o mais perfeito sistema de vigilância de sempre, protagonizado pela polícia secreta da Alemanha de Leste, a Stasi. “Stasiland” (“terra da Stasi”) é um documento que desafia a crença humana: um em cada seis habitantes era informador do Estado, o conhecimento da vida privada infindável. Um aviso sobre a manipulação da verdade, a queda dos direitos civis e as consequências da vigilância febril. A escritora australiana, que se estreia com este livro, venceu o prémio Samuel Johnson, dedicado à não-ficção, em 2004. Mas as histórias são contadas quase em jeito de romance. Imprescindível.

Sugestões de leituras (livros de 2005)

“Don Giovanni ou O Dissoluto Absolvido”, de José Saramago (Caminho)

É o regresso do Nobel ao teatro. A história de Don Giovanni, personagem principal da conhecida ópera de Mozart com o mesmo nome, é contada por José Saramago à sua maneira: o sedutor de 2065 mulheres passa a ser o eterno seduzido, segundo a pena do autor de “O Memorial do Convento” e “Evangelho Segundo Jesus Cristo”. Este livro é o resultado do apelo do compositor Azio Corghi para que, juntos, escrevessem um libreto para uma ópera a ser apresentada no Scala de Milão.

“Gulag – Uma História”, de Anne Applebaum (Civilização)

Prémio Pulitzer 2004 para a não-ficção. Só isso diz quase tudo. Gulag é um retrato do que foram os antigos campos de concentração soviéticos durante o tempo de Estaline. Os primeiros e últimos capítulos concentram-se na lição que ocidente e oriente devem retirar do que foi o sistema prisional na URSS. No miolo, surge uma série de relatos de heróicos sobreviventes. Os gulag eram um mundo em si mesmo: havia amor, traição, nascimentos, crime e amizade. Uns eram culpados, outros não.

“De Amor”, de Danièle Sallenave (Gradiva)

“Contar isto absorve todo o meu tempo, todas as minhas forças, transborda dos meus sonhos. Carrego comigo um estimável património de mortos, é preciso dizê-lo. E quem se lembra deles? Eu.” Duas pessoas amadas pela mesma mulher suicidam-se. A tia debaixo de um comboio, o antigo amante, que nunca gostou do que via ao espelho, à fome. Um livro autobiográfico sobre os traumas da guerra e da separação amorosa.

“O Atlas Furtivo”, de Alfred Bosch (Livros do Brasil)

Um thriller histórico. O pai de Jafudá, personagem principal, é encarregado pelo rei de Aragão de elaborar um mapa-mundo, o mais preciso e belo até então (século XIV). Ao mesmo tempo, o velho Cresques de Abraão decide elaborar outro. É nesse momento que Jafudá é envolvido num onda de acontecimentos imprevisíveis. Prémio Santi Jordi em 1997, “O Atlas Furtivo” é um livro de leitura fácil e entusiasmante.

“A Paixão de Maria Madalena (segundo volume)”, de Margaret George (Saída de Emergência)

A segunda parte da história d’ “A mulher que amou Jesus”, que relata a história de Maria Madalena como discípula de Cristo. George evoca com grande autenticidade as cores, os sons e as multidões da antiga Judeia. A autora aceitou o desafio enorme de escrever uma biografia ficcional sobre alguém de quem se sabe pouco. O resultado é um bom livro (no original, os dois volumes estão reunidos num único), apesar de esta segunda parte parecer um pouco menos atraente que a primeira.

“As Paisagens Propícias”, de Ruy Duarte de Carvalho

O antropólogo angolano conta neste livro a história de um homem, Paulino, a quem foi pedido que encontrasse outro no meio do deserto. O motivo: uns papéis preciosos concentrados no interior de uma mala. Uma vez cumprida a missão, a Paulino é reenviado pelo mesmo homem de encontro ao mandatário da expedição com o objectivo de o trazer perante ele. É a terceira obra de ficção de Ruy Duarte de Carvalho, depois de “Como se o Mundo não Tivesse Leste” e os “Papéis do Inglês”.

Sugestões de leituras (livros de 2005)

“O Pássaro Espectador”, de Wallace Stegner (Teorema)

Ganhou o prémio norte-americano de ficção em 1997. Um agente literário já reformado sente-se um jovem aprisionado em corpo de velho. A maior parte da sua vida, enquanto ajudava outros a alcançar o reconhecimento público e fama, foi passada como espectador. Só a serenidade de Ruth, a mulher, e a intimidade da relação conseguem diluir a mágoa que sente. Por ter passado pela vida como uma sombra. É então que reencontra o diário de uma viagem à Dinamarca, pouco depois da morte do filho. Uma demanda para apagar a dor. Joe Allston embarca no “Estocolmo” e, à medida que revê os bizarros acontecimentos, percebe que a sua participação no mundo foi bem mais directa do que julgava. Stegner consegue encontrar o equilíbrio perfeito entre uma linguagem que nos provoca e, ao mesmo tempo, nos acalma. Entre a nostalgia e a realidade. Um excelente livro.

“O Espião do Vaticano – Livro I”, de Luther Blisset (Saída de Emergência)

O primeiro volume já aí está. Trezentas e oitenta páginas antes de mais outras tantas sobre o século XVI, tempo da reforma luterana e das guerras religiosas. Um jovem protestante que permanece anónimo ao longo da história e o seu inimigo mortal “Q”, um espião do Papa, que tem como missão descobrir hereges, participam num mortal encontro de xadrez por toda a Europa. Ao mesmo tempo, é revelada uma conspiração bem maior, na qual os hereges são peões num jogo de poder entre o Vaticano, os príncipes alemães e o Império Romano. Os reformistas foram considerados os primeiros homens de esquerda da Europa, que surgiram para contrariar o capitalismo burguês, em que Estado e Igreja andavam de mão dada com o comércio e a banca. Luther Blisset é o pseudónimo não de um mas de quatro escritores, auto-intitulados de esquerda, de Bolonha. O que valoriza o resultado final: é muito difícil aliar estilo de linguagem entre duas pessoas e quase impossível com quatro; e neste livro as diferenças estão bem disfarçadas.

“Cartas do Inferno”, de Ramón Sampedro (D. Quixote)

O livro que deu origem a “Mar Adentro”, o filme de Alejandro Amenábar. O realizador escreve o prólogo desta edição, que tem ainda uma carta inédita do autor. “Cartas do Inferno” relata a vida de Sampedro desde que se tornou tetraplégico, após um acidente, e o seu desejo, durante 30 anos, de querer morrer. Foi editado pela primeira vez em Espanha em 1996 e reeditado em formato de bolso, após o suicídio do autor, dois anos depois. Sampedro encara a eutanásia como um fim lógico de quem não quer continuar a sofrer: rejeita teorias religiosas, legais ou mesmo intelectuais. Mas ninguém estava disposto a ouvi-lo. Ramón insistia. Escreveu cartas a juízes, ao Rei, ao Papa. Ninguém queria discutir com ele, um homem amargurado que nunca perdeu o sentido de humor. Um homem que sempre se mostrou sábio acerca do mundo e da própria vida.

“O Iluminador”, de Brenda Rickman Vantrease (Bertrand)

Um romance de textura fina e rica: vêem-se nítidas imagens coloridas, ouvem-se todos os sons, cheiram-se os cheiros, participa-se nos encontros, nos acontecimentos, nas histórias das personagens. Um retrato fiel do que era viver em Inglaterra durante a era de crueldade da Idade Média. Vantrease explora a relação de poder entre Nobreza, Clero e os monarcas, e mostra-nos o sofrimento do povo. A autora junta ainda à trama um extenso lote de personagens, que interagem com a família, amantes, servos e inimigos. Assim, chega até nós uma Inglaterra dos finais do século XIV, assolada por pragas, guerras, sublevações e tensão política e religiosa. O rei tem 10 anos e o poder é dividido pelos influentes tios. Ao mesmo tempo, o mestre iluminador Finn tem como missão ilustrar a Bíblia, que está a ser traduzida por um teólogo reformista para inglês. Brenda Vantrease relata de forma fantástica esta arte ancestral. E este é apenas um dos elogios possíveis ao seu livro.

“O Mistério da Cripta Assombrada”, de Eduardo Mendoza (Casa das Letras)

Um policial, escrito pelo catalão Eduardo Mendoza, que ganhou os prémios “Lire” e “Cidade de Barcelona”. O misterioso desaparecimento de crianças do colégio de freiras lazaristas de San Gervásio é o ponto de partida do livro. O protagonista é um doente de um manicómio, um psicopata, que é obrigado a tornar-se investigador e se vê envolvido numa farsa de contornos bastante confusos. “O Mistério da Cripta Assombrada” é uma mistura de novela negra e de relato gótico, que gira em redor do surreal e do bizarro: um doente mental a quem é atribuída uma missão lógica e importante. O humor é frio e, por vezes, brilhante. Negro. A linguagem de Eduardo Mendoza torna a obra leve e entusiasmante. Uma sátira, uma obra escrita como divertimento, que deve ser lida também dessa forma.

Sugestões de leituras (livros de 2005)

“Eleanor Rigby”, de Douglas Coupland (Teorema)

Liz Dunn é a solitária protagonista de “Eleanor Rigby”. Descreve-se a si mesma como “gorda, suja e mal-humorada”. O emprego é maçador e impessoal, e a sua vida social inexistente. E tenta arranjar truques no dia-a-dia para que os minutos passem mais depressa. Um jovem entra nas emergências de um hospital com o nome e o número de Liz na pulseira de assistência médica. Ele reclama ser o filho que ela terá dado em adopção há muitos anos, depois de uma gravidez na adolescência. Jeremy é tudo o que a mãe não é: cativante, extrovertido e irrequieto. E tem uma doença terminal. Douglas Coupland faz no título do livro uma alusão a uma canção dos Beatles com o mesmo nome para simbolizar a impessoalidade do mundo moderno. Diz o refrão do tema da banda de Liverpool: “All the lonely people/Where do they all come from?/All the lonely people/Where do they all belong?” (Todas as pessoas solitárias/surgem de onde?/Todas as pessoas solitárias/pertencem a quê?). A questão que se coloca a Liz e Jeremy é se juntos serão capazes de ultrapassar essa indiferença entre o mundo e quem nele vive.

“Lucrécia e o papa Alexandre VI”, de John Faunce (Presença)

Uma das “femmes fatales” mais carismáticas da história, Lucrécia Bórgia, e o pai Roderigo, que é eleito Papa Alexandre VI, em 1492. Uma das eras mais obscuras da Igreja Católica, com banquetes dionísios, repletos de sexo e crime, nos quais Lucrécia era orgulhosa participante. Um tempo em que o chefe religioso tinha mais poder financeiro e militar do que a maior parte dos reis. Lucrécia vê o seu primeiro casamento anulado três anos depois sem ser feliz e sem engravidar. É declarada “virga intacta” e casa-se por mais duas vezes. Faunce, em vez de enveredar pela pesquisa, deixa-se cair na tentação de explorar o ambiente erótico à volta de Lucrécia. Produtor cinematográfico e argumentista, e não historiador, o autor cria uma nova personagem, que tem tanto de histórico como o cidadão comum. A linguagem que utiliza é barroca e procura entreter e não ensinar, apesar de alguns exageros em certos momentos. Se for lido de acordo com esta linha de pensamento, então é uma boa sugestão de leitura. Se olharem para a obra como biografia, mais vale deixá-la na prateleira…

“A Vida Secreta das Abelhas”, de Sue Monk Kidd (Asa)

Um livro muito bem escrito, com uma linguagem poética, recheada de metáforas: as abelhas precisam de uma rainha para sobreviver como Lilly, aos 14 anos, necessita de uma mãe; Lilly quer fazer-se ouvir tal como a comunidade africana nos Estados Unidos, que só há pouco tinha ganho usufruto dos seus direitos. A jovem vive com um pai que a castiga e trata com escrava, excepto no Natal, quando chega a casa carregado de presentes, e pensa que matou acidentalmente a mãe há 10 anos. Decide acompanhar Rosaleen, a mulher que tem tomado conta dela, à sua cidade natal onde se recenseará para poder votar. Uns dias depois, ambas descobrem que viajam para Tiburon S.C., o nome da cidade escrita na parte de trás de uma imagem, uma madona negra, um dos poucos objectos que a rapariga herdou da mãe, Deborah. Doce como o mel, mas não forçadamente doce, inocente por vezes, mas não ingénuo – propenso a segundas leituras -, uma excelente livro.

“A História Fabulosa de Peter Schlemihl”, de Adelbert von Chamisso (Assírio e Alvim)

Obra maior de um escritor alemão de origem francesa do século XVIII. Uma novela que convida ao fantástico. A Peter Schlemihl é oferecida uma bolsa de dinheiro que permanecerá sempre cheia em troca da sua sombra. É agora um homem rico, mas algo de mau vai abater-se sobre ele. Afinal, poderá ser feliz um homem sem sombra? Ao jeito dos irmãos Grimm e de Andersen, um conto moral e filosófico.

“A Filha do Contador de Histórias”, de Saira Shah (Asa)

A jornalista inglesa Saira Shah, que cresceu no seio de uma família afegã, traz-nos este íntimo relato do caótico e ferido passado recente do Afeganistão. E das suas frágeis perspectivas de futuro. Será que o país dos seus antepassados, quando procura ainda ambientar-se a uma nova realidade, está preparado para garantir os direitos das mulheres?

“O Tesouro do Templo”, de Eliette Abecassis (Livros do Brasil)

Deserto da Judeia. Os serviços secretos de Israel são colocados em alerta. Um arqueólogo é brutalmente assassinado, com o corpo a ser encontrado num altar, em jeito de sacrifício. Peter Ericson procurava um tesouro fabuloso do templo de Jerusalém, seguindo as pistas dadas por um manuscrito. Que mistério está por detrás desta morte? Um livro escrito de forma apaixonada e conhecedora.

“As Minhas Noites com Descartes”, de Huguette Bouchardeau (Temas e Debates)

Huguette Bouchardeau revela-nos um Descartes humano, sensível, mais próximo do nosso mundo. Biografia, ficção e ensaio juntos no mesmo livro. A francesa escreveu este livro porque os seus alunos nunca entenderam bem o que dizia o filósofo. Descartes, o homem que existia porque pensava. E que Descartes não duvide que ela fez um bom trabalho.

“Dante e os Crimes do Mosaico”, de Giulio Leoni (Presença)

O poeta italiano Dante Alighieri é transformado em detective. “A Divina Comédia” já está a ser escrita e não tem experiência em resolver mistérios, por isso a tarefa pode não ser fácil. Em Florença, Dante tem de perceber quais as pistas que valem a pena seguir. Especialista em filosofia do Renascimento, Giulio Leoni traz-nos um policial capaz de nos prender até à última página.

Sugestões de leituras (livros de 2005)

“Auto dos Danados”, de António Lobo Antunes (D. Quixote)

“Ouve, merda, gosto de ti. Gosto da tonalidade dos teus olhos e das tuas mãos nos meus ombros quando fazemos amor, das pernas que se enrolam com força nas minhas e me atam, me prendem, me imobilizam, me impedem de sacudir as ancas, em avanços e recuos, à medida que me beliscas, e me mordes, e me insultas, e acabas por morrer como um bicho pequeno, de súbito inocente, indefeso, sem rugas, numa cascatazinha de gemidos magoados, de cara transtornada como se fosses chorar”. Um dos livros-ícone do eterno quase-Nobel António Lobo Antunes, reeditado agora pela D. Quixote em versão ne varietur, totalmente fiel à vontade do autor. Grande prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores (1985). Lobo Antunes não se comenta. Lê-se. Respira-se. Sente-se em arrepios da pele.

“O Deserto dos Tártaros”, de Dino Buzzati (Cavalo de Ferro)

Terceiro romance do escritor e jornalista italiano, um dos bons livros publicados em Portugal em 2005. Escrito em 1938, “O Deserto dos Tártaros” é um dos clássicos da literatura mundial. Um jovem oficial é enviado em serviço para um destacamento entre a montanha e um vasto deserto. Desesperado inicialmente para que o tempo passe depressa e possa voltar aos prazeres da vida normal, depressa é seduzido pelo local, onde passa os 30 anos seguintes da sua vida. Na esperança de que um dia o inimigo tente conquistar o forte e lhe permita um momento de glória e satisfação pessoal. A linguagem clara e a estrutura elegante do discurso de Buzzati faz com que acreditemos até ao fim que há uma razão escondida para que o personagem principal dedique parte da sua vida em busca de uma quimera. Mas a dúvida persistirá para sempre.

“Ainda da Felicidade”, de Hermann Hesse (Difel)

O sentido da felicidade segundo o Nobel suíço (natural de Calw, na Alemanha), num segundo volume da antologia “Da Felicidade”. “O poder do saborear e o do recordar dependem um do outro. Saborear quer dizer espremer de um fruto toda a sua doçura, até nada restar. Recordar, por seu turno, é a arte de não apenas reter aquilo que já antes se saboreou, mas também de o conseguir de modo cada vez mais nítido”. Prosa, poesia, correspondência e excertos, sempre sobre um tema que diz respeito a todas as pessoas do planeta: a realização pessoal. Vale a pena descobrir o autor de “Siddhartha”, um dos grandes nomes da literatura contemporânea, em todos os seus livros. Como este. O seu estilo simples e honesto granjearam-lhe inúmeros fãs por todo o mundo. Com justiça.

“No Antigamente, na Vida”, de José Luandino Vieira (Caminho)

Três estórias (com “e” e não com “hi”, mesmo) que não acabam, entrelaçam-se, continuam: “Lá, em Tetembuatubia”, “Estória d’Água Gorda” e “Memória Narrativa ao Sol de Kinaxixi”. “Noite nasce no antigamente, noite nova, pouco tempo só que falta e sua luz vem limpar nos nossos corpos boiando na memória das gordas águas de Kinaxixi: Uma lua honesta, minha testemunha única:/sábado na vida nunca mais na vida vai ter nunca mais Xaninha mas tu e eu é que somos de verdade mesmo/nunca nos deixaremos domesticar, juro!” Um livro que ficou pronto na tipografia no dia 24 de Abril de 1974, com o autor a distribuir os primeiros exemplares quando Salgueiro Maia encurralava a resistência do regime no quartel da GNR no Carmo. Luandino já só pensava em regressar a Angola, de onde saiu, anos antes, para o Tarrafal. “No Antigamente, na Vida”, foi recentemente incluído em francês na colecção “Du Monde Entier”, da Gallimard, com o título “Autrefois, dans la Vie”.

Sugestões de leituras (livros de 2005)

“Num País Livre”, de V.S. Naipaul (D. Quixote)

Cinco trabalhos, juntando-se o prólogo e o epílogo, com o mesmo ângulo, estrangeiros perdidos num país desconhecido e com uma cultura estranha: um operário indiano é transportado quase por acidente para Washington, onde encontra um nicho para se encaixar, mas continua alienado do que o rodeia; um índio passa a viver numa Londres bizarra; e trabalhadores americanos são expatriados para um recente estado africano dividido pela guerra civil. Várias visões de um mesmo mundo, de um idêntico ponto de vista. Para o Nobel de 2001, todos os homens fazem parte de colónias, mesmo em países livres. Com “Num País Livre”, originalmente publicado em 1971, o britânico natural de Trinidad venceu o Booker Prize. Uma obra de referência, editada agora pela D. Quixote.

“Se Ninguém Falar das Coisas Maravilhosas”, de Jon McGregor (Temas e Debates)

Um dia na vida... de vizinhos. Um bairro de Londres. Vidas fotografadas a polaroid, no momento, gravadas pela escrita inconfundível de Jon McGregor. Poética e muito colorida. De belas descrições, trabalhadas ao pormenor. Um cruzar de palavras que requer paciência, pelo sentimento de repetição que nos cria, mas que vale a pena. Muito. A história? Algo de mau vai acontecer, há essa denúncia nas entrelinhas, na conjunção e alinhamento dos factos. Um casal discute em todos os segundos, mas é apaixonado e voraz na cama; um homem tem as mãos cheias de cicatrizes depois de não ter sido bem sucedido a salvar a mulher de um incêndio; uma rapariga, a narradora, engravida depois de um relacionamento de uma noite e é o irmão gémeo do namorado que a acompanha até a casa dos pais. Para trazer a má nova.

“O Egiptólogo”, de Arthur Phillips (Gótica)

Ralph Trilipush procura o túmulo de Atum-Hadu, o último faraó da XIII dinastia egípcia. Mas poucos são aqueles que acreditam na existência de tal monarca. Ao mesmo tempo, Harold Ferrell, um detective privado australiano, está a investigar o desaparecimento de um homem no Egipto, no final da I Guerra Mundial. Os dois caminhos cruzam-se no deserto. Phillips traz-nos um mundo em que são poucas as certezas de que tudo ou todos são aquilo que parecem. Personagens de dupla ou mesmo tripla personalidade são explorados de forma brilhante pelo autor, que junta a isto um final entusiasmante e uma linguagem clara e eficiente.

“Pensatempos”, de Mia Couto (Caminho)

O primeiro livro de não-ficção do moçambicano publicado em Portugal. Trata-se de uma colecção de textos de opinião dispersos, publicados ao longo dos últimos anos em alguns jornais e revistas. Como esta carta ao presidente Bush, do qual se transcreve o primeiro parágrafo: “Senhor Presidente:/Sou um escritor de uma nação pobre, um país que já esteve na vossa lista negra. Milhões de moçambicanos desconheciam que mal vos tínhamos feito. Éramos pequenos e pobres: que ameaça poderíamos constituir? Uma arma de destruição massiva estava, afinal, virada contra nós: era a fome e a miséria.”

“Rosa Brava”, de José Manuel Saraiva (Oficina do Livro)

D. Leonor Teles e o seu tempo: o conturbado século XIV. Intriga palaciana, traição, assassínios e as guerras com Castela. Investigação pura trazida à luz do nosso tempo em forma de romance. Com uma linguagem fácil, atractiva e bastante feliz, o jornalista traz-nos um excelente exemplo de como pode ser ensinada a história. Apesar de ser uma obra de ficção, é baseada em factos históricos. A bela Leonor casa com o D. João Lourenço da Cunha por imposição do tio, o conde de Barcelos. Contrariada, parte para Lisboa, para a corte, onde seduz o jovem D. Fernando. Ambiciosa, conquista o poder que sempre desejou. Mas o povo, a nobreza e o clero não vêem com bons olhos a relação adúltera.

“Maré de Azar”, de Mark Mills (Civilização)

1947. O pescador Conrad Labarde e o sócio Rollo Kemp descobrem nas redes o corpo sem vida de uma jovem celebridade de Nova Iorque. A calma cidade de Amagansett, Long Island, nunca mais será a mesma. Tudo indica que se tratou de um acidente. Mas, o inspector Tom Hollis não se deixa enganar com as primeiras impressões. Pelo contrário. Acredita cada vez com mais veemência que a população anda a esconder-lhe algumas coisas. O próprio Labarde também se mostra bastante interessado no que poderá ter acontecido à jovem. “Maré de Azar” é um livro sobre a mudança, nas cidades e nas pessoas, escrito com uma atmosfera cinematográfica.

“Os Factos da Vida”, de Graham Joyce (Bizâncio)

Os factos de uma vida diferente daquela que vivemos. De um mundo onde o bater a uma porta pode significar a morte, ou uma noite de bombardeamento pode anunciar uma criança. Um mundo para o qual é irresistível manter o olhar. O nosso. De leitor. No romance não há lugar para sentimentalismos. Frank é neto de Martha e filho de Cassie, numa Coventry bombardeada durante a guerra. Frank é o nosso narrador num mundo impregnado pela força absurda das mulheres, sobretudo de Martha. O realismo mágico pela mão de Graham Joyce.

Sugestões de leituras (livros de 2005)

“Memórias de um Craque”, de Fernando Assis Pacheco (Assírio e Alvim)

“A maltózia votou contra: ‘Assis para a baliza.’ Lá fui./O que é não se aproximavam muito. Mal eu via um avançado de outra cor patinando na minha direcção, saía a ele, fazia ‘uh!’ e varapauzava-o como quem anda na azeitona. O avançado punha-se a guinchar e desaparecia até nova ocasião.” Um pequeno grande livro se lhe for aplicado o cliché da gíria do pontapé na bola. Uma obra sobre o futebol e sobre o seu papel na vida, logo na infância. Que se recita, que se lê aos amigos, que se devora para dentro. Divertido, irónico e autobiográfico. Hat trick de Assis.

“Um Monstro Também Precisa de Amigos”, de Jeff Lindsay (Quetzal)

Dexter ouviu do pai o melhor conselho que lhe podiam dar: “Mata só quem merece morrer e não deixes pistas que te liguem ao crime.” Quando está lua cheia, chega a fome de matar. É um desejo irresistível, que lhe está no sangue, que lhe chega através de uma força imaginária que chama de “passageiro negro”. Trabalho feito, guarda uma gota do sangue das vítimas. Para voltar a viver a emoção. Ao mesmo tempo, outro assassino em série começa a copiar o modus operandi de Dexter. Mas não esconde os cadáveres, mostra-se orgulhoso em deixá-los para apreciação geral. Dexter torna-se suspeito e decidir desmascarar o autor do plágio. Atenção: os conceitos deste livro podem ferir susceptibilidades, como, por exemplo, o de fazer de um assassino um herói de um romance. Vale como obra, deve ser lido como obra.

“Status Ansiedade”, de Alain de Botton (D. Quixote)

O polémico e por vezes incompreendido Alain de Botton – “O Consolo da Filosofia” e “A Arte de Viajar” – traz-nos agora “Status Ansiedade”, um daqueles livros que nos faz analisar os pensamentos a partir do lado de fora do nosso corpo. O principal fundamento da sua obra é o relacionamento entre tudo o que fazemos e a nossa constante procura de estatuto social/status. “Após o colapso do Império Romano no Ocidente, os indivíduos mais venerados passaram a ser, em muitas zonas da Europa, aqueles que se conformavam aos ensinamentos de Jesus Cristo”, diz-nos De Botton a certa altura. Um livro que nos obriga a pensar, enquanto lemos e depois de o fecharmos.

“O Círculo da Cruz”, de Ian Pears (Livros do Brasil)

Rico em detalhes históricos, zelo religioso, maravilhas científicas e intrigas políticas. Nem um pouco de bruxaria lhe falta. A novela começa no início do século XVII e relata o assassinato de um professor de Oxford, Robert Grove, de quatro pontos de vista diferentes. Pears é bem sucedido na mistura de personagens reais com ficcionais e na forma como vai alimentando o virar de páginas sucessivo por parte dos seus leitores. Os pormenores que o autor vai acrescentando à trama criam, a partir de certa altura, algumas dificuldades na leitura. Mas quem aguentar até final não vai arrepender-se.

Sugestões de leituras (livros de 2005)

“A Mulata Solidão”, de André Schwarz-Bart (Cavalo de Ferro)

Um belo romance de Schwarz-Bart sobre a escravatura. A história começa em África em 1750, com o nascimento da negra Bayangumay. No fim da adolescência, conforma-se com os costumes do seu povo e aceita, sem drama, tornar-se mulher de Dyadyu, um amigo do pai. A chegada dos brancos obriga, no entanto, a uma partida forçada para as Antilhas, via ilha Gorée, ao redor do Senegal, um dos principais pontos de tráfico de escravos. No navio negreiro, é violada. Dá à luz, à chegada a Guadalupe, uma menina mulata e rebelde que nunca chegará a amar, Rosalie: “Com a sua permissão, meu senhor, o meu nome é solidão.” Fiel ao seu sangue, Rosalie revolta-se contra os esclavagistas e torna-se heroína da ilha, onde ainda hoje, em Pointe-à-Pidre, está a sua estátua imponente.

“Kane & Abel”, de Jeffrey Archer (Europa-América)

Mais um livro que deu em filme, realizado em 1985 por Buzz Kulik. Dois homens nascidos no mesmo dia tornam-se inimigos durante 60 anos. William Lowell Kane pertence a uma família de banqueiros, vive luxuosamente e estudou nas melhores escolhas americanas. Abel Rosnovski é um pobre imigrante polaco que simboliza tudo o que Kane detesta. Só pode haver um vencedor no combate por um sonho, um império e uma fortuna. O mais teimoso derrotará o adversário.

“O Regresso”, de Jane Rogers (Livros do Brasil)

A sobrevivência é apenas o princípio. Nikki Black foi abandonada pela mãe pouco tempo depois de nascer e não sabe quem é o pai. Aos 28 anos, decide matar a progenitora. Tentou ser a melhor das pessoas, foi boa aluna e encontrou em emprego estável. Mas, depois de ter investigado um pouco, descobre que a mãe tinha 20 anos e não 15 quando a deixou numa caixa junto à entrada de um dos postos de correios de Londres. O que torna a atitude menos compreensível. Nikki decide-se pelo assassínio. Aluga um quarto à mãe, que não a reconhece, e descobre que tem um irmão. O plano vai aos poucos ganhando forma.

“Uma Casa no Fim do Mundo”, de Michael Cunningham (Gradiva)

Depois de “As Horas”, “Uma Casa no Fim do Mundo” também chegou, em 2004, ao cinema. O filme foi realizado por Michael Mayer e foi o próprio Cunningham que adaptou o livro a argumento. O autor traz-nos um novo conceito de família: Bobby muda-se para a casa de Jonathan, um amigo de infância, e de Clare. Bobby e Clare apaixonam-se, alimentando os planos de Jonathan, que é homossexual, em ser o pai de um futuro filho de Clare. Quando o casal tem um filho, os quatro mudam-se para uma casa mais pequena para criarem juntos a criança. E têm a ajuda da mais estranha das amigas: Alice.

“Pó Branco, Luz Verde”, de James Hawes (Temas e Debates)

A quarta novela de Hawes leva a sua heroína Jane Feverfew numa viagem cómica pelas excentricidades de Gales e pelo mundo dos filmes, em SoHo, Londres. O mundo que rodeia a personagem principal é bastante simples, superficial, quase etéreo. Só Jane, que é tudo menos inocente, é trabalhada pelo autor de forma a revelar tudo o que é realmente. Isto torna “Pó Branco, Luz Verde” um livro bastante leve, que se lê rapidamente. Isto apesar do tema central ser a droga, que destrói tudo e todos os que se chegam perto.

“Quimera”, de Valério Massimo Manfredi (Presença)

Manfredi é arqueólogo e escritor. O livro é um thriller arqueológico e, por isso, o autor sabe do que escreve. Um jovem estudante universitário chega a Volterra, Itália, para examinar uma misteriosa estátua etrusca que representa uma criança. O jovem persegue a descoberta que o pode lançar de vez na carreira. Mas, subitamente, várias mortes começam a aterrorizar a cidade. A explicação é o aparecimento de uma estranha criatura: uma quimera, um monstro fabuloso com cabeça de leão, corpo de cabra e cauda de dragão. Uma obra para devorar em poucos dias sem encontrar defeitos.

Sugestões de leituras (livros de 2005)

“Agradece o Beijo”, de Ana Zanati (D. Quixote)

O segundo romance da consagrada actriz portuguesa, depois de “Sinais do Medo”. Trata-se do relato da vida de uma mulher desde o nascimento até perto da morte, que ao mesmo tempo critica a sociedade e os seus preconceitos. “Desesperava-me quando se aproximava para me tocar dizendo que me amava. Ao sentir-me esquiva mudava o registo e tornava-se violento, batia-me. Tentei várias vezes explicar-lhe que o nosso casamento não podia seguir daquela forma. ‘Ninguém poderá separar o que Deus uniu!!’, berrava ele”.

“O Império dos Lobos”, de Jean-Christophe Grangé (Asa)

Anna é uma jovem casada que sofre de alucinações e de um problema de memória: reconhece o mundo inteiro menos o marido. Lembra-se de que foi alvo de operações plásticas, feitas por um louco que se encontrava ao serviço do exército. Três jovens de origem turca são encontradas mortas na “pequena Turquia”, um dos bairros de Paris. Um polícia, impotente para resolver o enigma, apela a um velho inspector. Violência, imaginação e erudição juntam-se neste excelente “thriller”, já adaptado ao cinema por Chris Nahon e coordenado pelo escritor francês.

“Largo da Memória”, de Homero Serpa (Caminho)

O antigo jornalista desportivo edita agora um livro de contos. Uma escrita com sabor a antigo, recheada de orações em cada frase, de buscas de novos sentidos e de muitas cores. As vidas de personagens do início deste tempo ganham novo fôlego, tornam-se reais em cada página. “A mulher da fava-rica despejou a concha cheiíssima da reconfortante sopa no prato côncavo que a freguesa, ainda embrulhada na bata de flanela cor-de-rosa, lhe estendia por uma nesga da janela, e só depois reparou no Messias, especado no passeio”.

“Alexandre – a Corte da Morte”, de Paul Doherty (Saída de Emergência)

O imperador prepara-se para invadir a Pérsia e conquistar o mundo. No entanto, na fronteira entre a Europa e a Ásia pára, subitamente indeciso e amedrontado. Os espiões e assassinos, e os sinais de maus augúrios preocupam o exército e Alexandre. Vários batedores são mortos. O monarca envia um amigo de infância no encalço do assassino e este depara-se com um estranho mundo de intriga e mistério. Doherty avança uma explicação credível para a indecisão do homem mais poderoso do planeta.

“Um amante na Palestina”, de Sélim Nassib (Teorema)

Golda Meir, que seria mais tarde primeira-ministra e pioneira do futuro Estado de Israel, dormiu com o inimigo. O seu mundo era sionista, ela era sionista, mas, nos anos 20, manteve uma relação com o banqueiro libanês Albert Pharaon. Uma israelita com um palestiniano, um árabe com uma judia. Selim Nassib conta agora esta história, verdadeira, mas impensável. Um romance em jeito de biografia. Um amor impossível.

“Rainha da América”, de Nuria Amat (Casa das Letras)

Prémio Ciutat de Barcelona 2002. A catalã traz aos seus leitores o eterno conflito colombiano entre o exército, os paramilitares e a guerrilha: uma jovem espanhola acompanha um jornalista, que também é escritor, à selva, ao coração da violência. A guerra é contada por uma terceira voz, não a do estratega nem a do soldado. Sem explicações, lamentos ou acusações, apenas com a força enorme das palavras, da linguagem, da emoção. “Rainha da América” é ainda uma homenagem aos escritores sul-americanos, que tanto influenciaram Amat, como Gabriel García Márquez.

«A Noite do Oráculo», de Paul Auster (Asa)

O melhor livro do norte-americano Paul Auster chegou a Portugal no final de 2004, mais uma vez com a chancela da Asa: “A Noite do Oráculo”. Excelente contador de histórias, um dos nomes cimeiros da literatura nos Estados Unidos, Auster aposta na constante luta entre o presente e o passado para tema central da sua última obra. O resultado é um livro refrescante e inteligente.

Quase 19 anos depois de “A Trilogia de Nova Iorque”, obra de estreia bastante aplaudida, “A Noite do Oráculo” está recheada com o melhor que o escritor pode oferecer ao público: um discurso simples e fluente, capaz de prender o leitor da primeira à última página. Obra-prima, claro. Por ser a última, porque Paul Auster pode (e sabe que pode) dar muito mais.

Um “morto” que regressa à vida e um amigo que deseja a sua morte. Um triângulo amoroso. O pano de fundo, disfarçado por um caderno azul, fabricado em Portugal e comprado numa loja chinesa, que dá início a um conjunto de tramas e sub-tramas hipnotizantes e que pouco têm que ver com o título escolhido por Auster para o romance. No fundo, um oráculo onde se redescobrem as relações humanas a partir do passado e não se vislumbram revelações do futuro.

É deliciosa a forma como Paul Auster descreve a relação entre o narrador, Sidney Orr, e a mulher Grace. Um dos grandes momentos do livro, que peca pelas longas notas de rodapé, com os “parêntesis” que o escritor quer afastar definitivamente do curso do livro. “Escrever não é mais uma questão de liberdade, mas de sobrevivência” (frase que ilustra o site oficial do escritor, em www.paulauster.co.uk). E nós sobrevivemos com ele.

«Filhas Rebeldes», de Manju Kapur (Presença)

À procura do controlo sobre o seu próprio destino. Para a bela Virmati e para a Índia dos anos 40 em “Filhas Rebeldes”, de Manju Kapur, livro editado recentemente em Portugal pela Presença. Um país à beira da “Partição”, da separação de uma Inglaterra em guerra com a Alemanha nazi de Hitler. Uma província, o Punjab (hoje Paquistão), em agonia depois da autodeterminação, a assistir à luta fratricida entre indianos muçulmanos e hindus. Uma jovem que luta contra o seu tempo e tradição familiar para poder estudar, ser autónoma e escolher a pessoa com quem pretende viver, contra a mãe e a mulher do amado.

Um romance cheio de sensualidade, no qual se pode saborear aos poucos a cultura de um país distante, de casamentos por anúncio ou de interesse familiar, onde um homem fala sempre para a mulher mais velha da sala, mesmo que se dirija à mais nova. Uma gastronomia que deixa água na boca, palavras deixadas pela tradução no meio do português, que aos poucos ganham sentido sem se ter de recorrer ao “maldito” glossário no final do livro.

Três gerações em discurso

Três gerações de mulheres narradas pela mais nova, a filha de Virmati. Virmati (e a Índia), a não revolucionária, a submissa, a bela, a impotente perante tudo o que lhe acontece, que ganha força com a vida, com as pessoas que a rodeiam, que a ajudam a lutar.

Um discurso embriagante por parte da escritora, que faz com que desejemos fechar o livro, guardá-lo numa mala até o voltarmos a abrir, num hotel distante, em Lahore, Tarsikka ou Amritsar, depois de termos apanhado o avião mais próximo no tempo. “Filhas Rebeldes”, primeiro romance de Kapur, recebeu o prémio da Commonwealth para a região asiática e foi nomeado pela mesma instituição para o de melhor primeiro livro e para o “Crossword Book Award”. Merece as distinções.

Sugestões de leituras (livros de 2005)

"A Filha da Curandeira", de Hernán Huarache Mamani (Presença)
Um raio transforma uma bela índia numa mulher-serpente, revela-a ao mundo e a si própria, torna-a capaz de se superar, de derrubar a sua resistência, perante o fascínio por um homem. Kandu viaja pelas crenças dos antepassados, pela sabedoria xamânica, e acaba a descobrir que o amor é a magia mais poderosa.

"As Noivas de São Bento", de Artur Portela (D. Quixote)
Ele escreve o que vê e sente do alto da calçada. As cartas revelam o homem que é e o que os outros são. Todos os destinatários são mulheres, dezenas de mulheres, sobre as quais exerce o seu poder. Uma viagem a um Portugal diferente, visto pelo olhar aguçado de quem já vai no sétimo romance.

"Nossa Senhora da Floresta", de David Guterson (Europa-América)
O autor de “A Neve Caindo sobre os Cedros” conta neste novo romance a história de uma rapariga de 16 anos, que fugiu de casa depois de ter sido violada pelo namorado da mãe e de ter abortado duas vezes. Vive de quase nada nos bosques, e a Virgem Maria aparece-lhe e pede-lhe para que construa ali uma igreja. A notícia das aparições reúne multidões nos bosques. Guterson aborda temas como a religião e a fé, e o aproveitamento que se faz sobre os mesmos. Um livro que ficou ainda mais próximo dos portugueses depois da morte da irmã Lúcia, vidente de Fátima, no dia 13.

"Os Crimes do Sino Dourado", de Robert van Gulik (Gótica)
Esta é a história de um juiz-detective que se tornou tão famoso no século VII d.C. como Sherlock Holmes foi em Inglaterra. Só que Dee Jen-Djieh foi uma personagem retirada da realidade histórica da China Imperial. O holandês Robert van Gulik, um erudito e poliglota, realizou importantes estudos sobre a cultura deste país asiático e, por isso, tornou-se no homem ideal para escrever sobre a intrigante personagem. Os crimes acontecem e o leitor acompanha o juiz Dee enquanto descobre como e por quem foram cometidos. A escrita é fácil e sem grandes floreados, o autor também não introduz doses elevadas de suspense, mas é surpreende a forma como somos transportados a um tempo tão distante de nós.

"O Calígrafo de Voltaire", de Pablo de Santis (Temas e Debates)
A moda dos thrillers pegou de estaca em Portugal. Um homem viaja com o coração do antigo mestre Voltaire dentro de um frasco e recorda as investigações feitas sob as suas ordens. O melhor do romance é a sensação criada de um mundo em que as dimensões se confundem: as máquinas e as pessoas, a realidade e o sonho. A escrita do argentino de Santos traz-nos aos dias de hoje um mundo já desaparecido, mas ainda presente, com as suas paixões, demandas e mistérios. E um enigma que nos prende até à última página.

O Livro depois do Código

“O Código Da Vinci”, editado pela Bertrand, foi um fenómeno de sucesso em 2004. Surgiram no mercado português, logo depois de terem sido conhecidos os primeiros números, outros livros. Os primeiros decifravam a obra de Dan Brown, os restantes eram outros “códigos” para seduzir o leitor nacional.

Estava descoberto um novo filão. A Presença foi a editora que se mostrou mais preparada para explorá-lo. “O Códice Secreto” foi o último dos três livros lançados no mercado pela empresa, depois de “Imprimatur - O Segredo do Papa” e “A Regra de Quatro”. Curiosamente, todos partem do mesmo ponto: livros ou documentos antigos, que revelam muito mais do que era conhecido.

O livro de Lev Grossman, “O Códice Secreto”, é ambicioso. Não é fácil misturar um jogo de computador e a investigação de um livro do século XIV, chamado “A Viage to the Contree of the Cimmerians”, mas a combinação resulta bastante bem. Edward também não é uma personagem por quem seja fácil apaixonar-se, mas as páginas vão ficando para trás e o leitor permanece ao seu lado na missão de descobrir um livro que toda a gente pensa que não existe.

As comparações com o Da Vinci de Brown são inevitáveis, mas o Códice ganha nos meios que levam a atingir o seu fim: Grossman não precisa de mortes ou de colocar o seu personagem em fuga para motivar quem lê a continuar numa busca ávida pelo final. O Códice é sobre livros e o seu poder de encerrar verdades.

Outros bons “thrillers”
“É um thriller histórico apaixonante, de grande intensidade detectivesca, que veio agitar o universo literário pelo efeito sísmico que as suas revelações – corroboradas por documentos históricos – produziram”. Não, não é do “Código” que se fala. Este é o texto de apresentação de “Imprimatur”, romance de dois italianos, Rita Monaldi e Francesco Sorti.

A partir de uma estalagem em que os hóspedes são colocados de quarentena, depois da morte misteriosa de um deles, desvela-se a Roma do século XVI, onde se cruza política, religião e espionagem, numa intriga que quer descobrir “documentos sensacionais nos arquivos do Vaticano” e em que “finalmente se revela um segredo de há séculos”. De entre o joio, este é um livro que se lê bem.

“A Regra de Quatro” também se diferencia de “O Códice Secreto” e aproxima-se de “O Código Da Vinci”. O livro de estreia de Ian Caldwell e Dustin Thomason reúne dois estudantes na investigação do “Hypnerotomachia Poliphili”. Loucura, traição e assassínio surgem durante a decifração da mensagem contida no livro e aumentam o suspense a níveis dramáticos, longe do pragmatismo de Grossman. Num ápice, forma-se para o leitor um remoinho ao qual é impossível escapar.

No dia 3 de Março, a Bertrand edita “Anjos e Demónios” de Dan Brown e o mercado português parece longe ainda de estar saturado.

«Romance com o Teu Nome», de António Rebordão Navarro (Campo das Letras)

Já à venda desde os finais de 2004, "Romance com o Teu Nome" não foi escrito para ser um "best seller". É um relato intimista que se lê devagar, com as emoções desenhadas em cada palavra, nas frases recortadas e reencaixadas entre vírgulas – que permite a Navarro dedicar-se a uma exaustiva análise das personagens - e na complexidade da luta com a saudade acrescentada pela morte.

Sugestões de leituras (livros de 2005)

"Os Impostores", de Santiago Gamboa (Asa)
Romance com o Teu Nome, de António Rebordão Navarro (Campo das Letras)
Já à venda desde os finais de 2004, “Romance com o Teu Nome” não foi escrito para ser um “best-seller”. É um relato intimista que se lê devagar, com as emoções desenhadas em cada palavra, nas frases recortadas e reencaixadas entre vírgulas – que permite a Navarro dedicar-se a uma exaustiva análise das personagens - e na complexidade da luta com a saudade acrescentada pela morte.

"O Dia da Tormenta", de Rosamunde Pilcher (Difel)
Leveza e ternura. São os adjectivos que melhor caracterizam os romances da britânica Rosamunde Pilcher. Mais do que uma história de amor, “O Dia da Tormenta” tem como pontos de partida e chegada a complexidade das relações humanas. E a bela Cornualha, terra natal da escritora, é o cenário de fundo.

"Momentos de Paixão", de Auguste Rodin e Rainer Maria Rilke (Relógio d’Água)
“Por metade chamo-te, por metade aparto-te de mim,/para não perturbar o belo encantamento;/ao escutar-te os pulsos, digo-me:/não estarás aqui?”. Poemas de Rilke para as aguarelas de Rodin. Versos que rimam com imagens. O poeta tornou-se melhor poeta quando foi secretário do escultor. Estudou a sua obra e o resultado vê-se neste livro: sensualidade em estado puro.

"Almas Antigas", de Tom Shroder (Pergaminho)
Um dos temas de sempre da humanidade: a vida depois da morte através da reencarnação. Shroder, um editor do “Washington Post”, acompanhou o psiquiatra Ian Stevenson num estudo de seis meses no Líbano, na Índia e no continente americano. O resultado é este livro, que se pretende “uma prova científica das vidas passadas”.

"Uma Outra Pessoa", de Tonino Benacquista (Gradiva)
Uma tarde, dois desconhecidos jogam ténis, o que os faz recordar os melhores momentos da juventude. Mais tarde, num bar, falam do que podiam ter sido se tivessem seguido outro caminho. Presos em vidas medíocres que nunca desejaram, Nicolas e Thierry ganham a coragem para se tornarem, por vias diferentes e dolorosas, pessoas mais próximas da personalidade que possuem. Sem grande complexidade de linguagem, é a trama que apaixona os leitores.

"Moralidade e Raparigas Bonitas", de Alexander McCall Smith (Presença)
Terceiro volume de uma série que engloba ainda “A Agência nº1 de Mulheres Detectives” e “As Lágrimas da Girafa”. Uma detective do Botswana prepara-se para desvendar uma série de crimes num relato linear e entusiasmante.

Sugestões de leituras (livros de 2005)

"Khadji-Murat", de Lev Tolstoi (Cavalo de Ferro)
O último livro do autor de “Guerra e Paz”, deixado por terminar segundo o mesmo, narra a história do mais famoso guerreiro checheno, Khadji-Murat. Sem a complexidade de acções e personagens do mais célebre romance de Tolstoi, já aqui referido, esta obra saiu ao caminho literário do escritor como mais uma reflexão sobre as ligações entre o poder, a violência e a corrupção. Murat tem um plano, acabar com a lei dos mais fortes.

"O Porteiro de Pilatos", de Jean d’Ormesson (Europa-América)
Tem como pós-título “O Segredo do Judeu Errante” e é sobre o que um sapateiro judeu chamado Ahasvérus, condenado pela dureza de coração a errar pela terra até ao Dia do Julgamento Final – a lenda conta que terá recusado um copo de água a Cristo –, tem para contar. Um casal encontra-o em Veneza e ele conta-lhes a sua visão da história do mundo desde a invasão romana da Palestina até esse dia. Um bom romance, apesar de algo confuso nos primeiros capítulos devido à quantidade de histórias paralelas. Está anunciado como o “mistério de Jesus que o Código Da Vinci não revela”.

"O Interior", de Lisa See (Livros do Brasil)
Um livro sobre as boas intenções e como estas podem ser corrompidas. Sequela de “Flower Net” (não publicado em Portugal), mas com vida independente, “O Interior” relata os esforços de Liu Hulan e David Stark em desvendar uma série de crimes cometidos em Los Angeles e Pequim e em acabar uma fraude de proporções gigantescas. Os costumes chineses do passado e do presente dão um cenário exótico à série de mortes habitual nas obras policiais.

"Os Olhos do Homem que Chorava no Rio", de Ana Paula Tavares e Manuel Jorge Marmelo (Caminho)
“A primeira luz da manhã entra no quarto. Não chega ténue, não pede licença. Invade, amarela e diáfana, a nesga livre deixada pelas coisas sólidas da natureza. Recorta-se no chão, traça um espaço luminoso de geometria vaga – e aí nasce o corpo inaugural, bonito e firme, iluminado de frente, quase irreal”. É assim que começa o último romance editado pela Caminho. Brasil, Portugal e Angola numa mistura feliz de cheiros, sabores, imagens, pessoas e palavras.

"Desconseguiram Angola", de António Valis (Celta Editora)
“Um sonho perdido, um pesadelo fútil ou uma loucura portátil”. É aviso da nota introdutória, antes de se virar a primeira página, antes do mergulho às profundezas de uma Angola marcada em tudo pela guerra. Entre linhas, as pessoas, a terra, os sentimentos, a vida... Questões sobre o carácter humano e a tendência de auto-destruição.

«Satanás», de Mario Mendoza (Temas e Debates)

Fecha-se o livro, olha-se no vazio. As imagens da última página persistem ainda com o esfregar das pálpebras. Uma frase – “Eu sou legião” – ainda ecoa quando se olha para a contracapa. Ainda treme na vista, perante a avalanche de acontecimentos, pelo desabar de encontros, pela esperada (sim, esperada) sucessão de fins que se tornam um. Três histórias, Bogotá como centro do pecado, como antro de um anjo exterminador que chega para expiar os males do mundo. Três histórias, independentes e subitamente alinhavadas, unidas, intensas.

Um pintor (Andrés) que pinta um futuro terrível em auto-retratos, um padre (Ernesto) com vocação, mas sem imunidade às tentações das mulheres, uma jovem (Maria) que abandona uma vida de amarguras para enganar homens ricos. O realismo puro em cada frase, uma miúda possuída pelo Demo que lembra Linda Blair do “Exorcista” de William Friedkin (1973), as histórias em avanços paralelos nos capítulos. O embalar para uma leitura febril. A consciência de que se está perante algo único, que não se quer deixar, pousar na mesinha de cabeceira, mas sim dar a mão às palavras até às últimas consequências. Sejam elas quais forem.

É assim “Satanás”. Uma surpresa da Temas e Debates para o início do ano, um dos melhores livros lançados em Portugal nos últimos meses. O nome não inspira a compra, a capa não tem as cores da moda. Não se vê nas montras das livrarias. Como se fosse uma obra marginal, incómoda, esquecida propositadamente pelos espaços comerciais. Mas vale a pena encomendá-lo, pedi-lo por catálogo, perguntar por ele numa feira do livro. Vale a pena porque sim. Porque o colombiano Mario Mendoza já é considerado um dos grandes nomes da literatura sul-americana, digno sucessor dos compatriotas Carlos Fuentes e Gabriel García Márquez. Porque o livro é realmente bom. Como se faltasse um pouco para ser grandioso, mas merecendo estar na primeira fila da biblioteca lá de casa.

É um livro que não se deve ler sozinho. Porque se gosta ou pode detestar-se. Porque mexe connosco. E esse é o melhor elogio que lhe pode ser feito.

«Norwegian Wood» (Civilização) e «Sputnik, Meu Amor (Editorial Notícias), de Haruki Murakami

Vinte anos depois. Finalmente. A melancolia das palavras do japonês Haruki Murakami pode finalmente ser admirada em Portugal. Uma obra-prima (“Norwegian Wood”, Civilização Editora) e um livro “para recomeçar” (“Sputnik, Meu Amor”, Editorial Notícias) estão finalmente disponíveis. Foram lançados ao mesmo tempo e a primeira nota a sublinhar-se é uma pergunta: por que demoraram tanto tempo a chegar cá?

Os capítulos devoram-se num ápice. Murakami tem esse dom. Fazer com que o tempo passe sem que se coloque a hipótese de fazer uma pausa. Partindo dos mesmos temas – a solidão, o amor impossível, as lutas interiores – o japonês criou dois livros diferentes, mas com inúmeras pontes de ligação. “Norwegian Wood” é um livro intenso e sensual, que não abandona o leitor mesmo depois de se virar a última página. As palavras são pensadas para tocar fundo na alma. A partir de uma canção dos Beatles nasce um triângulo de amor.

“Tive uma vez uma mulher,/ou será que devo dizer/que foi ela que me teve?/Mostrou-me o seu quarto,/não é bom?/Norwegian Wood (bosque norueguês)/(…) e quando acordei/estava sozinho,/este pássaro voou,/então acendi um cigarro,/não é bom?/Norwegian Wood.” É assim que começa e acaba a canção dos Beatles. E é assim que começa o livro de Murakami. É nesta solidão que três personagens (Toru Watanabe – o narrador -, Naoko e Midori) se debatem com a vida e a morte.

O aperitivo e a obra-prima

“Sputnik, Meu Amor” é um livro de um escritor maduro. Linear, simples, mas belo ao mesmo tempo. Capaz de comover também. Mais um triângulo: o narrador gosta da irreverente Sumire, que, por sua vez, se apaixona pela mais velha Miu. O título da obra explica-se nos primeiros capítulos: Miu não conhece o movimento literário “beatnik” e confunde-o com o satélite. A partir daí, a charmosa coreana toma o epíteto de “Sputnik, meu amor”.

As personagens de Murakami confundem-se entre livros: os dois narradores, Miu e Reiko, que estudaram piano na infância e tiveram de abandonar a prática, as irreverentes Sumire e Midori). “Sputnik, Meu Amor”, paradoxalmente por ter sido o último a ser escrito, é um excelente aperitivo para “Norwegian Wood”. E este último vale muito a pena.

«Anjos e Demónios», de Dan Brown (Bertrand)

“Anjos e Demónios”. É o último romance de Dan Brown a ser editado em Portugal, apesar de ter sido escrito antes de o “Código Da Vinci”, o livro que surpreendeu o mundo em 2004. Uma antiga irmandade secreta regressa à actividade para ameaçar de aniquilação o Vaticano, reunido para o Conclave de eleição do novo Papa. Uma experiência científica para provar a existência de Deus resulta numa arma de destruição maciça, a antimatéria. Os Illuminati, representantes do mundo científico, querem vingar-se das perseguições da Igreja no passado.

Robert Langdon é um especialista em simbologia religiosa chamado de urgência ao mais avançado centro de investigação científica devido a uma morte misteriosa. O ambigrama (uma palavra que se lê da mesma forma mesmo que seja invertida) Illuminati tinha sido queimado no peito de um cientista. Na companhia da filha da vítima, Robert parte na descoberta do antigo “Caminho da Iluminação” – os candidatos a membros da irmandade tinham de descobrir um caminho secreto pela cidade de Roma – a partir de um documento de Galileu.

Cinco horas para salvar a Igreja

Um Hashassin (assassino árabe que festejava as mortes com o consumo de haxixe) é contratado por Janus, o homem que se propõe erradicar a Igreja Católica do planeta. Os quatro cardeais preferidos para a sucessão ao papa morto são raptados e serão assassinados de hora a hora, junto a cada um dos quatro elementos do “Caminho da Iluminação”. A antimatéria está a horas de tornar o país mais pequeno do mundo num vazio entre fronteiras. Robert e Vittoria têm cinco horas para o impedir.

Capítulos pequenos dão origem a uma leitura rápida, sem grandes pausas para figuras de estilo como elipses ou para descrições extensas e complexas. As mais de 500 páginas são desbravadas mais rapidamente do que o esperado, o livro torna-se um filme com intervalos, ao qual se regressa sempre com o mesmo interesse. “Anjos e Demónios” não entusiasma pelo barroquismo da escrita, mas pela aura de expectativa criada pelo discurso linear de Dan Brown, que aumenta com a evolução da trama. Apesar de algumas pistas denunciarem “twists” na evolução da história, Brown consegue evitar a clarividência total do leitor antes da altura certa. Até o final lembra um filme. Norte-americano. De final feliz, claro.

Uma analogia simples em jeito de conclusão: quem gostou de “Código Da Vinci” vai gostar de “Anjos e Demónios”.

Sugestões de leituras (livros de 2005)

A Guardiã dos Sonhos, de Rani Manicka (Asa)
Um poderoso e bem trabalhado romance, que transporta os leitores até às paisagens, costumes e delícias culinárias da Malásia. As histórias de quatro gerações de mulheres são contadas por Rani Manicka neste seu primeiro livro, que junta os sentimentos de perda, amor e traição num cenário exótico, cheio de deuses, fantasmas e magia. Complexo e intenso.

Néctar, de Lily Prior (Bizâncio)
Uma sátira, enquadrada naquilo que praticamente se tornou uma corrente literária: o realismo mágico. Lily Prior conta a história de Ramona Drottoveo, uma mulher sensual, devoradora de homens, expulsa do paraíso até conseguir seduzir um apicultor que sempre a rejeitou. “Néctar” propõe ser um livro divertido, sensual, capaz de entreter e fazer rir durante mais de 200 páginas.

Máscaras de Matar, de León Arsenal (Presença)
Uma máscara maligna desaparecida volta para espalhar ainda mais violência no terror diário de um povo, os Seis Dedos. A morte e o traço realista na descrição das batalhas são constantes neste livro, que venceu o prémio internacional Minotauro, que se dedica à ficção científica e literatura fantástica.

O Dia em que Matei o Meu Pai, de Mário Sabino (Saída de Emergência)
Uma narrativa rápida, que se devora de uma só vez. O assassino conta a uma psicóloga como e por que matou o seu pai, invocando uma série de ideias religiosas e filosóficas, verdades e mentiras. A estreia em ficção do brasileiro Mário Sabino, editor-executivo da revista “Veja”.

O Caso da Rua Direita, de Carlos Ademar (Oficina do Livro)
A ficção que podia ser realidade. O investigador criminal da Polícia Judiciária, Carlos Ademar, faz neste livro um relato do que é normalmente o quotidiano de quem persegue criminosos. Uma viagem num mundo desconhecido...

Madame Sadayakko, de Lesley Downer (Bertrand)
Uma excelente biografia, resultante de uma pesquisa apurada, com uma excelente estrutura e escrita de forma a cativar o leitor. A história de uma gueixa, a primeira a viajar à volta do mundo, a tornar-se actriz no ocidente sem conseguir falar uma palavra de inglês. Foi aclamada, conheceu monarcas e artistas. E, por isso, ficou com tanto para contar, através de Lesley Downer.

Marta e Maria, de Mousette Braga (Ariadne)
Um livro que se lê de um trago. Uma poesia que não se lamenta, que rima pensamentos e ideias, e vai além da emotividade. Uma poesia de alguém que tem opiniões, caminhos diferentes. Um olhar feminino, em verso, para a vida que nos rodeia.

«O Dia em que Matei o Meu Pai», de Mario Sabino (Saída de Emergência)

“O Dia em que Matei o Meu Pai” é o romance de estreia de Mario Sabino, editor-executivo da revista “Veja”. Um livro que quer perturbar...

“’Venham-me prender. Matei o meu pai’, e desliguei o telefone”. O dia-a-dia de um assassino - com um livro chamado “Futuro”, escrito pelo próprio e transformado parêntesis no meio da trama - até ao dia do crime. Uma confissão relatada no divã de uma psicóloga, a quem se tenta impressionar. A procura de uma justificação para um disfarçado complexo de Édipo, para a força encontrada antes de desferir duas pauladas no cocuruto do progenitor. Um parricídio, contado de forma fria, quase factual, pelo filho humilhado. É assim “O Dia em que Matei o meu Pai”, do jornalista brasileiro Mario Sabino.

O assassino, que se salvou da prisão por alegada demência, procura com ajuda psicológica encontrar ele próprio as razões que o levaram a matar o pai. Ou talvez já as conheça e as viagens mentais feitas na companhia da analista sirvam apenas para alimentar o seu alter-ego. Talvez nem tudo seja verdade, como ele próprio admite depois de algumas divagações. O monólogo - será que a médica está mesmo presente enquanto relata a sua história? - continua, no entanto, por um mundo estranho, escuro e por vezes inquietante. O discurso divaga entre filosofias de vida.

Dois livros paralelos
O livro introduzido a meio do romance traz outra história, paralela. “Futuro” também trata de perversão e de morte. É outra história, também sombria, dentro da trama principal. A mente de um assassino em jeito de romance. Uma viagem diferente, ficção dentro ficção. O mesmo tema, com causas diferentes e finais semelhantes.

O escritor diz, em jeito de conclusão, em jeito de aviso aos leitores portugueses, que a boa literatura é movida pela infelicidade. E o parricida é um filho infeliz. Um marido infeliz. A soma de negativos dá, inevitavelmente, um assassino feliz.

«Neverwhere», de Neil Gaiman (Presença)

E se lhe dissessem que uma das mais conhecidas cidades da Europa está dividida ao meio? Bem, Berlim também esteve, não seria nada do outro mundo. Mas e se não fosse ao meio num plano horizontal, mas sim vertical? Se lhe dissessem que existe uma Londres-de-Cima e uma Londres-de-Baixo, acreditaria? Um Londres real e uma Londres no submundo, esquecida entre as linhas de metropolitano? Neil Gaiman parte deste conceito para criar um romance onde a ficção mais próxima da realidade se confunde com outra, a caminhar para o fantástico.

Door cai aos pés de Richard, que caminha ao lado da noiva, Jessica, pela cidade, rumo a um jantar importante. O encontro com essa rapariga em fuga, que possui a estranha habilidade para abrir portas mesmo onde não existem, transporta-o para outra dimensão. Um mundo onde há gente que-fala-com-ratos, anjos, uma chave guardada por monges e duas personagens maléficas – Mr. Croup e Mr. Vandemar –, que matam a cada esquina.

Door procura o autor moral da morte de toda a família, sabendo, por intuição, que Croup e Vandemar foram os autores materiais. Richard vê o seu mundo mudar, sem ninguém que o reconheça, inclusive Jessica, e sem dinheiro e a vida habitual, após o contacto com a estranha rapariga ferida.

Entre o sorriso e o arrepio
“Neverwhere – Na Terra do Nada”, editado em Portugal pela Presença, é um livro bem conseguido. Divertido. Por vezes, aterrorizador. Tão aterrorizador como Croup e Vandemar podem ser na escuridão dos túneis. O grupo improvável – Richard, um campónio que veio trabalhar para a cidade; Door, uma rapariga com poderes telecinéticos; um marquês, De Carabas, com sete vidas; e uma “amazona”, a que chamam Caçador, contratada como segurança de Door – tenta devolver a chave a um anjo.

O segredo de Gaiman é conseguir manter sempre ténue a fronteira entre a ficção-realidade e a ficção-fantasia. Ao segurar com rédeas firmes a imaginação, o autor mantém o leitor agarrado à terra numa história sobre um mundo irreal.

Sugestões de leituras (livros de 2005)

O Exílio e o Reino, de Albert Camus (Livros do Brasil)
Seis contos reunidos pelo talento de Camus – “A Mulher Adúltera”, “O Renegado”, “Os Mudos”, “O Hóspede”, “Jonas” e “A Pedra que Cresce” – escritos um após o outro, em série, mas trabalhados isoladamente, com estilos diferentes, desde o monólogo interior à narração realista. O tema comum é o exílio. O exílio como forma de renascer e de negar a submissão a ideias erradas.

Mar de Glória, de Nathaniel Philbrick (Publicações Europa-América)
A história da grande expedição norte-americana de 1838 aos mares do Sul. Quatro anos na Antártida e no Pacífico resultaram em várias descobertas científicas e geográficas. Uma viagem que se quis esquecer devido aos maus-tratos causados à população pelo arrogante e paranóico Charles Wilkes, líder da expedição. A luta entre o homem e a natureza, a América e a Europa, a ciência e a política, os homens e entre cada um consigo próprio.

O Sonho dos Heróis, de Adolfo Bioy Casares (Cavalo de Ferro)
Só o punho decidido do argentino conseguiria aguentar durante mais ou menos 160 páginas um ritmo tranquilo para nas últimas dez ou 20 mudar por completo o rumo dos acontecimentos. Um livro sobre a insegurança na mudança da adolescência para a idade adulta e sobre a inevitabilidade do destino. Casares foi galardoado em 1990 com o Prémio Cervantes – o maior reconhecimento dado a escritores de língua espanhola – e este é um dos livros que explica porquê.

Malmequer, Bem-me-quer, de Claudia Carroll (Presença)
Esta é a estreia literária da actriz irlandesa Claudia Carroll. Um livro leve, espirituoso, que procura que o leitor se sinta bem em cada parágrafo. Um livro para divertir, escrito com simplicidade. A história de uma família rica e da sua vida depois da fuga do pai com uma jovem ajudante de cavalariça.

O Livro dos Homens sem Luz, João Tordo (Temas e Debates)
Livro de estreia, palavras que envolvem e sobressaltam, com as sombrias Londres e Brighton a fazer de cenário. Quatro histórias paralelas, em viagem entre o presente sem luz e o passado onde desligaram a corrente eléctrica das suas vidas. Um pesadelo que lembra Kafka por vezes, Edgar Allan Poe outras e que vai crescendo com um solidez que não deixa que se pare de ler no final da próxima página.

A Vizinha do Lado, de Barbara Delinksy (Difel)
Um jovem casal tem um objectivo comum a tantos outros: ter filhos. O tempo passa e Amanda não engravida. Paralelamente, uma jovem vizinha, viúva há um ano, descobre que vai ser mãe e recusa-se a revelar o nome do pai. A infertilidade é o ponto de partida de um livro sobre as dificuldades por que passa um casamento. E sobre tudo o que pode acontecer no dia-a-dia.

«Mitzváh», de Alain Elkann (Cavalo de Ferro)

Uma Mitzváh é um mandamento, uma ordem que se recebe da leitura e interpretação do Pentateuco, o conjunto dos cinco primeiros livros do Antigo Testamento. Para Alain Elkann, uma Mitzváh é sentir-se judeu e fazer com que os outros compreendam o que é sê-lo. O que nunca foi fácil, como conta, com maior ou menor paciência, a história. O seu livro, best-seller internacional, transporta-nos ao difícil mundo da tolerância para os novos costumes, crenças e religiões.

“Ser judeu quer dizer prestar atenção, fazer o melhor possível para garantir alguma certeza a si mesmo e aos outros. Quer dizer saber ser olhado com suspeita, com inveja ou com respeito excessivo, mas de qualquer modo como um perigo. Ser judeu quer dizer ter de defender-se, tentar construir uma força interior para não ser destruído. Ser judeu quer dizer ter a responsabilidade de levar para a frente a cultura de um povo com mais de cinco mil anos de história e que ninguém ainda conseguiu, apesar das muitíssimas tentativas, exterminar, mandar calar.”

“Mitzváh” é um livro sobre uma vida, a do autor. Uma obra sobre a sua tentativa de se integrar num mundo que sempre o olhou com desconfiança. A ele e aos outros. Elkann debate-se ao longo de 59 páginas com as suas filosofias de vida, filosofias de um “judeu errante”, como lhe chamava o pai. Por se sentir em casa em sítios diferentes, por acreditar que o mundo deveria ser apenas um. Por ser diferente dos demais. É um livro filosófico sobre uma causa: viver feliz.
Alain Elkann faz o elogio do que é ser judeu. Do que foi e do que será. Para o bem e para o mal.

«Transatlântico», de Paulo Nogueira (D. Quixote)

Um homem nasce numa viagem aérea entre Portugal e Brasil. Fica luso-brasileiro, nem carne nem peixe, para sempre. Vive entre os dois países, por desejo dos pais, fala com perfeição os dois sotaques e os muitos termos diferentes da mesma língua, mas não consegue criar raízes. Nunca ganha a sua identidade. Anos depois, após ter saboreado apenas um trago da felicidade, é raptado. Nessa casa-de-banho escura, perante a companhia cada vez mais temida de uma aranha, recorda uma vida repleta de amargura.

Paulo, filho de um pai novo-burguês, vira trotskista. Conhece uma mulher comunista, mas que vive segundo leis liberais, e tem um filho mimado que, pouco a pouco, se afasta dele. Regressa ao Brasil. Casa-se com uma especialista e experimentalista em sexo, que tem uma filha que pratica a auto-flagelação como filosofia de vida. Rompe com a mulher, cria afinidades com a rapariga, que o vê como um amigo. Talvez como pai. Para trás, ficou uma professora deformada por um acidente no churrasco, provocado pelo seu excesso de zelo, e uma colega que o achava atraente, mas que ele afastou devido a um medo que o perseguiu desde sempre.

O típico anti-herói
“Transatlântico”, de Paulo Nogueira, é um bom livro. Crítico por vezes, bem-humorado por outras. Fatídico quase sempre. Paulo é o puro anti-herói, do qual se adivinham sempre os finais infelizes. Mas a personagem torna-se apaixonante. Tão próxima e ao mesmo tempo tão distante de nós, de pessoas que amamos ou conhecemos. Paulo, um “brasuca” altruísta, que todos gostariam de ter como amigo, procura um rumo para a vida que lhe foge desde criança. Desiste da faculdade de Direito, torna-se cobrador de impostos. Desiste de ser justo na procura das igualdades sociais e encontra a catarse num veleiro. E no mar.

Já se disse que é bom. O sexto romance de Paulo Nogueira é mais que isso, é um livro surpreendente. Mas cria ao início uma relação difícil com o leitor. Como se houvesse dois ritmos, o autor deixa de abusar das comparações – às vezes chegam a ser duas numa frase – e passa a usá-las, mais lá para a frente, com mestria. Com inteligência. A obra torna-se assim melhor a cada página.

“Transatlântico”, editado pelas Publicações D. Quixote, não chegou só agora às montras das livrarias. Já será difícil que o apanhem em lugar de destaque. Mas, para quem esteja atento, não será muito complicado reconhecê-lo quando estiver de frente para a capa. É que se trata de uma das mais bem conseguidas dos últimos tempos. A prova, como se ainda faltasse, de que se trata de um livro cuidado.

«O Jardim das Delícias», de João Aguiar (Asa)

O autor de “A Voz dos Deuses” e “A Encomendação das Almas” edita agora “O Jardim das Delícias”. João Aguiar mostra mais uma vez uma versatilidade que não está ao alcance de todos os escritores.

Do registo histórico – do já referido “A Voz dos Deuses”, de “A Hora de Sertório” e “Inês de Portugal” -, passando pelo fantástico na obra de contos de “O Canto dos Fantasmas” e pela literatura mais apropriada a um público juvenil, da qual “O Sétimo Herói” é um bom exemplo, o antigo jornalista explora agora um quadro futurista. Uma Federação Europeia, “filha da União Europeia e neta da CEE”, pretende acabar com os traços mais nítidos do nacionalismo, em nome de algo a que chama “Coesão”.

João Carlos é o protagonista. Num mundo em que os carros andam com piloto automático, um jornalista da mais credenciada publicação portuguesa vê-se com uma bomba-relógio prestes a rebentar nas mãos. De um lado, os integristas querem fazer regressar o país aos seus traços únicos. Do outro, os federalistas esperam silenciosamente o momento certo para erradicar o movimento. O caos parece próximo, à medida que o repórter vai descobrindo, e divulgando, o que realmente se passa. A realidade torna-se, num ápice, um mundo paralelo, quase inexistente.

Um exercício sobre o futuro
“O Jardim das Delícias” é, ao mesmo tempo que reclama o estatuto de romance, um exercício mental sobre o que pode reservar o futuro a todos os cidadãos europeus. O final pode não ser o mais risonho, mas não deixa de ser um dos vários caminhos possíveis. Um caminho que assusta.

João Aguiar é um contador de histórias. Sabe-se, sente-se que adora contá-las. As palavras flúem naturalmente, agarram-se à leitura. E, resultado: as páginas devoram-se. Mas o autor parece ter parado na altura em que o seu romance estava perto de se tornar um “thriller”, tão na moda nos últimos tempos. E se há algo de que não possa ser acusado é de ser um dos nomes da moda. Nunca o foi.

O livro sabe a pouco. Como se lhe tivessem arrancado metade, depois de apenas nos ter introduzido na trama. Esse pecado, que até pode ter sido propositado, retira-lhe alguns elogios. O escritor até talvez já o sinta e prepare um livro de continuação. Os leitores mais fiéis merecem-no.

Sugestões de leituras (livros de 2005)

“Don Giovanni ou O Dissoluto Absolvido”, de José Saramago (Caminho)
É o regresso do Nobel ao teatro. A história de Don Giovanni, personagem principal da conhecida ópera de Mozart com o mesmo nome, é contada por José Saramago à sua maneira: o sedutor de 2065 mulheres passa a ser o eterno seduzido, segundo a pena do autor de “O Memorial do Convento” e “Evangelho Segundo Jesus Cristo”. Este livro é o resultado do apelo do compositor Azio Corghi para que, juntos, escrevessem um libreto para uma ópera a ser apresentada no Scala de Milão.

“Gulag – Uma História”, de Anne Applebaum (Civilização)
Prémio Pulitzer 2004 para a não-ficção. Só isso diz quase tudo. Gulag é um retrato do que foram os antigos campos de concentração soviéticos durante o tempo de Estaline. Os primeiros e últimos capítulos concentram-se na lição que ocidente e oriente devem retirar do que foi o sistema prisional na URSS. No miolo, surge uma série de relatos de heróicos sobreviventes. Os gulag eram um mundo em si mesmo: havia amor, traição, nascimentos, crime e amizade. Uns eram culpados, outros não.

“De Amor”, de Danièle Sallenave (Gradiva)
“Contar isto absorve todo o meu tempo, todas as minhas forças, transborda dos meus sonhos. Carrego comigo um estimável património de mortos, é preciso dizê-lo. E quem se lembra deles? Eu.” Duas pessoas amadas pela mesma mulher suicidam-se. A tia debaixo de um comboio, o antigo amante, que nunca gostou do que via ao espelho, à fome. Um livro autobiográfico sobre os traumas da guerra e da separação amorosa.

“O Atlas Furtivo”, de Alfred Bosch (Livros do Brasil)
Um thriller histórico. O pai de Jafudá, personagem principal, é encarregado pelo rei de Aragão de elaborar um mapa-mundo, o mais preciso e belo até então (século XIV). Ao mesmo tempo, o velho Cresques de Abraão decide elaborar outro. É nesse momento que Jafudá é envolvido num onda de acontecimentos imprevisíveis. Prémio Santi Jordi em 1997, “O Atlas Furtivo” é um livro de leitura fácil e entusiasmante.

“A Paixão de Maria Madalena (segundo volume)”, de Margaret George (Saída de Emergência)
A segunda parte da história d’ “A mulher que amou Jesus”, que relata a história de Maria Madalena como discípula de Cristo. George evoca com grande autenticidade as cores, os sons e as multidões da antiga Judeia. A autora aceitou o desafio enorme de escrever uma biografia ficcional sobre alguém de quem se sabe pouco. O resultado é um bom livro (no original, os dois volumes estão reunidos num único), apesar de esta segunda parte parecer um pouco menos atraente que a primeira.

“As Paisagens Propícias”, de Ruy Duarte de Carvalho (Cotovia)
O antropólogo angolano conta neste livro a história de um homem, Paulino, a quem foi pedido que encontrasse outro no meio do deserto. O motivo: uns papéis preciosos concentrados no interior de uma mala. Uma vez cumprida a missão, a Paulino é reenviado pelo mesmo homem de encontro ao mandatário da expedição com o objectivo de o trazer perante ele. É a terceira obra de ficção de Ruy Duarte de Carvalho, depois de “Como se o Mundo não Tivesse Leste” e os “Papéis do Inglês”.

Sugestões de leituras (livros de 2005)

“Melodia ao Anoitecer”, de Siddharth Dhanvant Shanghvi (Civilização)
O livro que estabeleceu comparações entre o autor e os consagrados Salman Rushdie e Arundhati Roy. “Melodia ao Anoitecer” é um livro que se vê mais do que se lê, dedicado a manter vivas as tradições de uma Índia desconhecida para o povo europeu. Excelente escrita e passagens quase poéticas. O regresso em força do realismo mágico.

“As Deusas em cada Mulher”, de Jean Shinoda Bolen (Planeta)
Um livro para todas as mulheres, dirigido sobretudo àquelas que se sentem na terceira fase da vida. Em 263 páginas, Bolen explica por que essas devem dar um passo em frente e assumir a sua responsabilidade perante o mundo, oferecendo tudo o que absorveram ao longo da vida. Para isso, a escritora conta a história de deusas e fala de arquétipos – modelos endógenos de conduta, segundo o psicólogo suíço Jung. O fim: “uma mulher viçosa e sumarenta”.

“Os Filhos”, de Dan Franck (Asa)
Jeanne e Pierre. Divorciados. Pais. Haverá, na vida, uma segunda oportunidade? Dan Franck está preparado para provar que sim, depois de em 1991 ter ganho o Prémio Renaudot com “A Separação”. Uma nova família, com antecedentes difíceis, quatro crianças e dois solteirões felizes que encontram finalmente no outro o amor correspondido, procura resistir aos conflitos do dia-a-dia. No livro inspirou-se Christian Vincent para um filme com o mesmo nome.

“Estação Carandiru”, de Drauzio Varella (Palavra)
Best-seller no Brasil, venceu inúmeros prémios: melhor reportagem, melhor livro de não-ficção e melhor livro. Acabou por inspirar um filme que, curiosamente, antecipou a obra de Drauzio Varella em Portugal. O autor relata o trabalho voluntário de prevenção à SIDA que realizou como médico na Casa de Detenção de S. Paulo, a maior prisão brasileira, no bairro de Carandiru. Uma experiência pessoal intensa.

“Jorge Palma – Na Terra dos Sonhos”, organizado por João Carlos Callixto (Quasi)
De 1971 até ontem. Do primeiro vinil pela banda Sindicatos até estar a solo no palco. Único na voz e nas palavras. É o primeiro livro que reúne tudo o que foi escrito pelo cantor que melhor sobreviveu ao fim do protesto político. Crítico desde sempre, um livro em que se folheia Jorge Palma: “Deixa a música ser/Deixa a música sair/Deixa a música continuar/Deixa a música levar-te onde o teu coração quer chegar.”

“O Segredo de Mona Lisa”, de Dolores García (Europa-América)
Francesco Melzi, discípulo de Leonardo da Vinci, assiste às últimas horas de vida do mestre, ainda e sempre obcecado com um quadro: “La Gioconda”. O génio conta então, por Melzi que o narra e por Dolores García que o escreve, a sua relação com a mulher que retratará no quadro hoje em exposição no Museu do Louvre, em Paris. Lisa Gherardini, a sua... Lisa. Um romance, de estreia, muito interessante.

Romana Petri (entrevista): «Quis consolar os filhos e punir os pais»

É um dos nomes do momento da literatura italiana. Romana Petri edita o seu quarto livro em Portugal, escrito em 1999, “para consolar os filhos e punir os pais violentos”.

- Como nasceu “Os Pais dos Outros”, as personagens, as histórias?
- Escrevi este livro em 1999. Sou uma escritora biográfica, mas também autobiográfica, porque há sempre um pouco de mim nos meus livros. Mas estou mais interessada nas histórias dos outros. Estas são histórias que conheci na minha vida. Histórias de alunos meus, inclusive. O pai de Giovanni, por exemplo... Junta-se sempre ficção quando se escreve, mas Giovanni foi um aluno meu, que vivia em permanente conflito com o pai. Tornou-se homossexual para lhe fazer a desfeita. Depois voltou à sua natureza, ser heterossexual. Um livro não se sabe como acontece. Começou com um conto, depois achei que devia continuar, como uma espécie de vingança contra a injustiça: uma consolação para os filhos, uma punição para os pais.

- Revoltou-se enquanto escrevia?
- Sim, um pouco. É um livro muito forte, cruel, de grande violência, em que me coloco do lado dos filhos. É que sou filha e mãe ao mesmo tempo. Os pais são fundamentais na educação dos filhos. Somos 50 por cento o que nossos pais fazem de nós. Isto gera uma grande revolta. Nos casos de Mário e Sandro conto como eles chegaram à vingança. A violência gera violência. Os filhos dominam os pais. A violência pode transformar o dominador em dominado. A psicologia moderna diz que os pais violentos geram filhos violentos. Este livro também é pouco a história da Itália da II Guerra Mundial até aos nossos dias. Houve uma mutação na paternidade. Após a guerra, o meu país era muito campestre, muito conservador. No último conto, que teve uma tradução difícil, tento mostrar essa transição. O pai de Nicola castiga o filho enquanto diz palavras em latim. Nicola torna-se pai. Há uma grande mudança. Ele percebe que não tem de bater para ensinar, apesar de manter as mesmas frases em latim.

- Sentiu alguma vez vontade de parar de escrever?
- Não. Fiz uma pausa ao escrever uma história boa. Não acho que todos os pais sejam maus. São uma minoria, mas isso não torna a situação menos grave. Este livro é também uma denúncia, uma acusação aos pais e também às mães que ficam caladas. Neste livro, são como sombras. As mulheres têm de se revoltar. Não podem ser cúmplices.

- Confúcio dizia que todos os homens nascem bons, Rousseau acrescentou que a sociedade é que os corrompe; acredita que todos os pais nascem bons?
- Sou mais da opinião de Diderot. Os homens nascem com virtudes e defeitos. No meu livro “Esecuzioni” [Execução], que vou editar em Portugal provavelmente no próximo ano, uso uma frase dele: “Os homens maus não têm de ser punidos, têm de ser eliminados”. Depois, o lugar e a família influenciam muito. Há irmãos que são completamente diferentes. Há ainda o ADN, que tem uma grande importância naquilo que somos. O que é verdade é que pais cruéis podem gerar pais cruéis. Este livro avisa que a violência pode gerar violência. Também tem alguma psicologia: as crianças são seres humanos muito fracos, temos de formá-los e não de os destruir. É inacreditável que a maior parte da violência da nossa vida exista na própria família. É importante termos uma raiz forte, que nos permita sobreviver. Nos meus livros, nunca falo de casais separados. Não é preciso que haja divórcios para que exista violência. Prefiro uma família separada feliz, do que uma junta infeliz.

- Disse uma vez, numa entrevista, que “o literário é perpétuo, a realidade dissolve tudo”. Foi por isso que escreveu este livro, para que o aviso seja perpétuo?
- A vida e a literatura são muito diferentes. Viver de uma forma literária é ridículo. Mesmo um escritor muito inteligente, se viver dessa forma perde a inteligência. A verdade é que o livro fica e a realidade passa. A literatura serve para fazer passar uma mensagem. Mas detesto todos aqueles que se acham Dostoievski. É preciso que haja humildade. Eu gosto do que faço, não tenho como ambição deixar um traço importante na história. Tenho uma visão muito lúdica da escrita, apesar de ser calvinista e moralista. Gosto de maridos fiéis, separar o bem do mal... Neste mundo que está a perder a moral, não faz mal que seja assim.

- Que reacções tiveram Avelina, Giovanni, Gualtiero, Gaetano, por exemplo, quando os reencontrou após ter publicado o livro?
- Não os encontrei a todos. Há histórias de há muito tempo. Nunca consegui escrever nada no presente. Pode ser que algum deles tenha lido o livro. Mas há sempre duas opiniões: ou se gosta ou se detesta. Os pais devem ter ficado chateados, os filhos mais contentes. Se alguém se reconhece no que está escrito no livro, a culpa não é minha.

- “Os Pais dos Outros” já venceu alguns prémios em Itália. O que seria para si o sucesso em Portugal?
- Não sei. Todos os livros impressos estão nas livrarias. Isso é bom sinal. O livro também é muito forte no aspecto psicológico. A maioria já teve problemas com os pais. O primeiro conto, que é quase um prefácio, é sobre o meu pai e ele era um bom pai, no sentido de que gostava muito de mim. Mas todos têm algum tipo de problema.

Romana Petri (entrevista, II): «Saramago mudou a minha visão do amor»

- “A Senhora dos Açores” passa-se no Pico e tem outro romance com a ilha das Flores como cenário, “Um baleeiro dos montes” [editado pela Salamandra em Portugal]. Em “Uma Guerra na Úmbria” há uma passagem em que Alcina ouve de um companheiro de armas a letra do fado “Perseguição”. A ligação com Portugal parece muito forte. Vai voltar a escrever sobre este país?
- Nesta altura, estou já a escrever uma continuação de “A Senhora dos Açores”. Isto porque, na Feira do Livro, uma miúda veio ter comigo e apresentou-se como a sobrinha de João Freitas, personagem principal e que existe mesmo. Disse-me: “O meu tio casou-se”. No primeiro livro, há um conflito entre a turista e o João Freitas, que luta também com o fantasma da mulher falecida. Fiquei muito desiludida com o que me disse a rapariga. Estive no Faial e quis ir de barco para o Pico, mas não consegui por questões de agenda. No livro, imagino-me a ir ao Pico para discutir com ele. Num dia inteiro, consigo convencê-lo de que ele fez mal em casar-se outra vez, mas ele também me convence que fez bem... Estava a pensar em chamá-lo “Açores assim” ou “Ainda nos Açores”, mas ainda não sei. Vou editá-lo só aqui, em Portugal.

- Sente-se mais portuguesa que italiana?
- Gosto mais de estar aqui do que no meu país. Gosto muito de Itália, mas somos sempre mais críticos em relação ao país onde nascemos. Aqui há mais tranquilidade, menos violência, mais paciência. Aqui há uma depressão saudável. Gosto muito do silêncio. Portugal tem qualidades do Sul e do Norte da Europa: as pessoas são de temperamento mediterrânico, mas com uma discrição do Norte. Em Itália, é impossível unir as duas coisas.

- O que faz com que não pegue nas malas e venha de vez para cá?
- O trabalho, o meu filho. Mas passo muito tempo em Portugal, até porque estou a publicar agora apenas na língua portuguesa, para aqui, para o Brasil e para África.

- Algum escritor português a inspirou em algum dos seus livros?
- Não sei quantificar as influências. Mas gosto imenso de José Saramago. O “Memorial do Convento” influenciou muito a minha visão do amor. Também gosto de António Lobo Antunes, mas é muito cerebral, denso. Acho que é sempre muito parecido, além de escrever demais. E depois há os clássicos: Camilo, Eça, Camões. Adorava a Sophia de Mello Breyner Andresen. “A minha alma é feita de maresia”. É um verso dela.

- Nos seus livros, as personagens têm muita força, as descrições tornam-nas quase reais. Mas, ao mesmo tempo, há sempre algo de transcendental, de mágico, de fantasia. É difícil conseguir este equilíbrio?
- Eu própria sou assim. Muito materialista e, ao mesmo tempo, fantasiosa. Isso reflecte-se nos meus livros. Há sempre esta mistura. Uma interacção entre vivos e mortos.

- Acredita fazer parte de alguma corrente literária?
- Acho que sim, apesar de não dever ser eu a dizê-lo. O realismo mágico não surgiu na América do Sul, sempre existiu na literatura. Formei-me a ler romances de cavalaria sobre a Idade Média. O meu livro preferido é o “D. Quixote” de Cervantes. Mais uma vez, há essa mistura entre o fantástico e o real. A realidade parece-me sempre um pouco pobre e, por isso, junto-lhe alguma imaginação. Para mim, a escrita é como atravessar um rio. Moro deste lado, mas, de vez em quando, preciso passar para a outra margem para ver as coisas com outra perspectiva.

- Em todos os seus romances conta o mal dos outros. Para quando um livro autobiográfico?
- Escrever sobre os outros é ser altruísta, mais generosa. Os escritores mais biográficos que autobiográficos escrevem mais. De resto, há sempre algo de nós em todos os livros.

Sugestões de leituras (livros de 2005)

“O Atentado”, de Henry Porter (Ulisseia)
Um livro de espionagem e terrorismo, recheado de “twists”, que proporciona uma leitura entusiasmada e vertiginosa. O conselheiro do presidente dos Estados Unidos para a segurança desembarca em Heathrow, Londres, para uma reunião de emergência com o primeiro-ministro britânico. Pouco depois, numa perseguição automobilística, é atingido por um tiro e morre. “O Atentado” é a demonstração dos conhecimentos de Henry Porter sobre o mundo da espionagem.

“A Imperatriz Orquídea”, de Anchee Min (Teorema)
Dinastia Ch’ing, no século XIX. A vida de Dowager Tsu His, a imperatriz Orquídea, uma mulher que chega à “Cidade Proibida”, o palácio imperial da China, para ser concubina ou esposa do imperador e acaba por se tornar o rosto do poder durante mais de quatro décadas. A única das sete companheiras do imperador a gerar descendência, torna-se regente depois da sua morte. Um livro que transforma a aura de uma das personagens-demónio da história chinesa.

“Malina”, de Ingeborg Bachmann (Edições 70)
Lindíssimo em estilo, talvez algo vazio em conteúdo, mas imprescindível. A narradora, “Eu”, vive com um homem, de sobrenome Malina, e envolve-se com outro, Ivan. O célebre triângulo amoroso. Um livro autobiográfico, o único publicado em vida pela alemã e primeiro de uma série deixada incompleta. Escrito precisamente quando se gritava pela afirmação feminina, “Malina” é um relato do que podem os homens fazer às mulheres. Obra-prima.

“O Jardim de Cimento”, de Ian McEwan (Gradiva)
O livro que deu razão ao filme, com o mesmo nome, de Andrew Birkin, argumentista de “O Nome da Rosa”. Uma prosa calma, precisa e sensual, por vezes mórbida, de um best-seller inglês. Publicado originalmente em 1978, quatro crianças enterram a mãe falecida na cave da própria casa. Órfãs, tentam sobreviver apenas com a ajuda uma das outras, num mundo por vezes claustrofóbico. Uma obra perturbante, mas nunca irreal.

“Geometria Variável”, de Nuno Júdice (D. Quixote)
“Leio o amor no livro/da tua pele, demoro-me em cada/sílaba, no sulco macio/das vogais, num breve obstáculo/de consoantes, em que os meus dedos/penetram, até chegarem/ao fundo dos sentidos”. Uma poesia heterogénea, variável, transportada para livro. A homogeneidade alinhada pelo que tem de melhor dar-lhe-ia o estatuto de livro brilhante.

Sugestões de leituras (livros de 2005)

“Russendisko”, de Wladimir Kaminer (Cavalo de Ferro)
O nome deriva de uma famosa discoteca de Berlim, montada pelo autor, um imigrante russo, e por um amigo. Kaminer apresenta-nos 50 pequenas histórias em 121 páginas, a partir das experiências vividas na Alemanha, a partir de 1990, por si e pela sua família. Narrador e autor são, portanto, a mesma pessoa. Foi escrito em alemão em 2000, apenas dez anos depois de Kaminer ter começado a aprender a língua. Teve sucesso estrondoso no mercado germânico.

“Inverno Mágico”, de António Pinelo Tiza (Ésquilo)
Com o pós-título “Ritos e Mistérios Transmontanos”, o documento é um contributo importante para o registo das manifestações populares no Nordeste português. Como o livro é uma das boas formas de perpetuar o que pode estar em risco de extinção, o autor, profundo conhecedor dos costumes e práticas da região, dedicou muitos anos da sua vida ao estudo minucioso do folclore de Trás-os-Montes.

“Este Lado para Cima”, de Holly Fox (Temas e Debates)
Uma comédia escrita por Elizabeth McGregor sob o pseudónimo de Holly Fox. Quatro mulheres, de mundos diferentes – uma executiva de uma cadeia de televisão e escritora sem sucesso, uma jornalista, uma dona de um refúgio de aves e uma aristocrata falida – encontram-se por acidente para causar o casos nas vidas de cada uma.

“Ensina-me a Namorar”, de António Garcia Barreto (Campo das Letras)
Um romance em 29 e-mails. Original, com uma linguagem experimentada, bem escrito. “Ensina-me a Namorar” é o terceiro romance do premiado António Garcia Barreto, que tem dedicado grande parte da carreira literária à literatura infantil. Lê-se num ápice.

“Reencontro com o Passado”, de Patricia Tyrrell (Civilização)
Editado inicialmente com o título “Bones in the Womb” (Ossos no Útero) e com um número de cópias reduzido, “Reencontro com o Passado” chegou há pouco tempo a Portugal. Uma rapariga de três anos é raptada por um sem-abrigo alcoólico, que, doze anos depois, a tenta devolver aos pais por não suportar viver em consciência com um crime cometido por ela. Mãe e filha vão ter de aprender a conhecer-se.

“O Osso Côncavo e Outros Poemas”, de Luís Carlos Patraquim (Caminho)
“Há nos teus olhos/a tristeza dum rosto/alagado de demora/um silêncio d’amoras/e a cor nos lábios/por florir//há um rio de ir/sangue/tragicomer de riso/o mangue”. O moçambicano Luís Carlos Patraquim lançou a sua antologia poética, com algumas raridades. Um livro indispensável para os amantes do género, ainda recheado com o exotismo do português de África.

«O Velho e o Mar», de Ernest Hemingway (Livros do Brasil)

Um peixe, a solidão do mar, uma doença mortal. A luta pela sobrevivência. O velho Santiago lança-se ao alto mar, em redor de Havana, Cuba, para provar aos mais jovens que, depois de 84 dias sem pescar qualquer peixe, ainda tem o instinto e a perícia necessários para não voltar com a proa vazia. Com uma nova isca, feita por um jovem amigo, o aprendiz e antigo companheiro de pesca Manolín, prepara-se para capturar um peixe-recorde, com mais de cinco metros de comprimento.

A luta entre Santiago – que durante este tempo se alimenta do que consegue apanhar – e o peixe testa os limites de resistência de ambos. Mas, finalmente, o velho pescador é bem sucedido. Amarra o espécime ao barco e viaja para terra. Santiago está disposto a mostrar a todos que ainda está vivo, que ainda consegue ser bom na sua profissão. “A vela fora remendada em vários pontos com velhos sacos de farinha e, assim enrolada, parecia a bandeira de uma derrota permanente”, começa Hemingway o seu relato poético, em jeito de profecia.

O pescador, cansado e esfomeado, ainda não ganhou a guerra. Mais pesada e depois de arrastada para uma rota desconhecida, a embarcação está mais lenta na viagem de regresso. Atraídos pelo sangue da conquista de Santiago, os tubarões atacam à vez, transformando o peixe em esqueleto. O velho vai ganhando batalhas, mas sabe que a derrota é iminente. Porque o sangue atrai mais e mais tubarões vorazes.

Esgotado, Santiago chega à praia de onde partiu. Quebrado por dentro, depois de cuspir um líquido estranho. Vai para o pobre casebre onde vive, derrotado. Com o amanhecer, outros pescadores vêem o barco atracado, com o esqueleto do peixe amarrado num dos lados. O comprimento do peixe traz ao velho a admiração de todos.

“O Velho e o Mar”, publicado em 1952, garantiu a Ernest Hemingway o prémio Pulitzer. Dois anos mais tarde, o escritor norte-americano recebeu o Nobel da Literatura. Grande clássico da ficção contemporânea, é um dos livros que nos fica para sempre. Que nunca esquecemos. Uma obra perfeita em todos os seus momentos. Que podemos interpretar de maneira diferente. Talvez por isso, foi agora reeditado pela Livros do Brasil. Em boa hora, para quem nunca o leu.

«Encontro em Jerusalém», de Tiago Rebelo (Presença)

O amor, outra vez. O encontro, a paixão, a separação, a sensação corrosiva de vazio, o reencontro. Quase um ano depois de “Romance em Amesterdão”, Tiago Rebelo edita o seu sexto trabalho de ficção. “Encontro em Jerusalém” é, muito provavelmente, o melhor livro do autor, que a editora (Presença) classifica como o Nicholas Sparks português, comparando os números das vendas.

Os best sellers são muito raramente amados pela crítica. “Encontro em Jerusalém” não deverá alterar a ideia já formada sobre Tiago Rebelo: pouco literário, de escrita fácil e populista, com o amor sempre como ponto de partida e chegada dos seus livros. Mas a nova obra é mais do que uma viagem por um romance entre duas pessoas. A complexidade sangrenta da guerra, vista de um lado neutral por quem apenas relata, a dor do aborto como potenciadora da destruição de um casamento e a vida diária de quem arrisca a vida por uma história a contar alargam os horizontes deste livro.

Afonso e Francisca são dois jornalistas, dois repórteres de guerra, que se encontram em Jerusalém (daí o título). Os dois testemunham a violência e a tensão crescente entre israelitas e palestinianos, mas são expulsos do país porque uma fotografia faz capa em Portugal. Apaixonam-se e viajam juntos para Sarajevo, onde fogem aos disparos dos franco-atiradores, testemunhando o horror de uma guerra que não poupa ninguém, nem mulheres e crianças. O regresso a Jerusalém acontece mais tarde, já com Francisca grávida.

Tiago Rebelo transforma uma praça de Jerusalém no cenário principal do romance. A linguagem, quase cinematográfica, tem aqui o seu ponto alto. Francisca espera por Afonso numa esplanada e não sabe que, poucos metros à sua frente, uma mulher-bomba pensa no que está para acontecer. A polícia, alertada, descobre-a, mas uma bala menos feliz provoca a explosão. Francisca – que já pegara na máquina e começara a fotografar febrilmente - cai para trás. Depois descobre que perdeu o bebé, mais tarde é-lhe dito que não pode mais ter filhos. É o princípio do fim da sua relação com Afonso.

“Encontro em Jerusalém” lê-se num ou dois dias. Um trabalho mais atento de revisão e edição poderia ter resolvido alguns dos seus problemas. Mas Tiago Rebelo parece estar no bom caminho, este livro é melhor que o último. Se o próximo for melhor que este...

Sugestões de leituras (livros de 2005)

“A Voz Secreta das Mulheres Afegãs – O Suicídio e o Canto”, de Sayd Bahodine Majrouh (Cavalo de Ferro)
“Em segredo ardo, em segredo choro/Sou a mulher pashtun que não pode revelar o seu amor”. Este “landay” – termo que pode ser traduzido para “breve” – simboliza o que é este livro de poemas tradicionais das mulheres do Afeganistão, uma obra contra a repressão, seja esta do poder instituído ou em casa, pelo “horrível pirralho”, o marido. O autor fez a importante recolha antes de ser assassinado no Paquistão, país que escolheu para o exílio. A poetisa Ana Hatherly é a responsável pela tradução, a partir do francês.

“Um Pintor na Corte”, de Sonia Overall (Civilização)
Novela de estreia da escritora inglesa, que nos transporta até ao tempo de Isabel I. Um jovem pintor talentoso acredita que pode fazer parte da corte e tornar-se um dos mais bem sucedidos artistas da sua era. Mas depressa percebe que entrar no meio não é fácil e só com a cumplicidade da bela Kat o consegue. A relação entre os dois torna-se cada vez mais íntima a partir do momento em que Robin Thomas passa a ter os favores da nobreza. “Um Pintor na Corte” é um livro colorido, ou seja: as imagens que nos traz são nítidas, vívidas e belas.

“O Cão na Casa Verde”, de Isabel Millet (Caixotim)
A pintora Paula Rego foi uma das leitoras privilegiadas (e mais entusiasmadas) do romance de Isabel Millet e é sua a ilustração da capa. O livro é inspirado nas memórias de infância da autora, passadas na casa de Guilhermina Suggia. Que era verde. A discípula da célebre violoncelista criou um novo mundo em cima da saudade dos tempos passados na Rua da Alegria, nº 665.

“Mãe e Filha”, de Marianne Fredriksson (Presença)
Katarina é uma jovem arquitecta independente que, quando conta ao companheiro – um americano de passagem na Suécia – que está grávida, não consegue evitar que este a deixe inconsciente e seja obrigada a recuperar numa cama de hospital. Vê-se impelida a pedir ajuda à mãe Elisabeth, ao irmão Olof e à bela irmã Erika. E descobre que o pai também batia na mãe, o que as torna mais próximas e a ajuda a esquecer o passado.

“O Reino Encantado”, de Mário Ventura (Casa das Letras)
Um escritor procura inspiração para um novo livro na investigação de uma história verídica: o mito sebastianista regressara no Brasil em 1838. Um grupo de fanáticos decide suicidar-se para fazer com que o corpo encantado do rei português, que, acreditam, está sepultado algures em Pernambuco, regresse à vida. Uma dádiva de sangue para que o nevoeiro que envolve o monarca o traga de volta.

«Os Meus Sentimentos», de Dulce Maria Cardoso (Asa)

Depois de “Campo de Sangue”, Dulce Maria Cardoso editou recentemente “Os Meus Sentimentos”, um excelente livro, também com a chancela da Asa, que se passa nos minutos que demora uma mulher (Violeta) a morrer, após um acidente de automóvel. Quase mórbido, mas ao mesmo tempo bastante distante de o ser. Triste, como as cores (castanho e branco) que fazem a capa. Uma história de vida. O segundo exemplo de que a autora está na linha da frente dos autores portugueses.

A ilustração de uma vida, presa no reflexo de uma gota de água que permanece em suspenso no pára-brisas, é conseguida pelo regresso lento ao passado, a uma vida infeliz, mas distorcidamente feliz, a relações complicadas (com os pais e com a filha), à conturbada visão de o espelho lhe devolve e a faz procurar o sexo com desconhecidos, e a um tempo de mudança (pouco depois do 25 de Abril de 1974).

Dulce Maria Cardoso garantiu em entrevistas que o seu livro não é mórbido, apesar de ter o fim da vida como tema. “Escrevo sobre a morte para celebrar a vida”, disse. E “Os Meus Sentimentos” é isso mesmo: uma dissertação sobre um modo de viver. O pai de Violeta escolhe a mãe para casar, apesar de ter uma relação com outra mulher, da qual nasce um rapaz. A mãe permanece com a cabeça e o estilo de vida amarrados aos tempos que antecederam a Revolução. O rapaz alia-se aos movimentos revolucionários e confronta o pai. Mais tarde, conhece Violeta e do relacionamento nasce uma menina. Violeta e a filha estão cada vez mais afastadas, talvez por culpa da progenitora, cujo estilo de vida não é o mais exemplar. Gorda, muito gorda, procura sexo ocasional em estações de serviço e em outros locais. A morte surge na estrada, mas o coração parece continuar a bater indefinidamente.

“Os Meus Sentimentos” é um excelente livro, muito bem escrito. Trabalhado até à exaustão. Talvez por isso, em alguns momentos, faça lembrar António Lobo Antunes. Tão cheio de emoções que, no fim, bate-nos com a força de uma maré enorme de tristeza. Pela vida. Pela mulher que tem o “nome de uma flor que também é uma cor”. Violeta.

Sugestões de leituras (livros de 2005)

“Shutter Island”, de Dennis Lehane (Gótica)
Um livro que se lê e relê. Porque é excelente e porque o fim nos atira de novo para o princípio, nos obriga a olhar para toda a história com uma visão diferente. Porque o que fica obscuro nos continua a perseguir depois da última página. O autor de “Mystic River”, transportado com grande sucesso para o cinema, continua a surpreender. Em 1954, o polícia Teddy Daniels investiga o misterioso desaparecimento de uma doente de um manicómio, situado numa ilha à qual só há acesso por barcos comerciais. Quem o ler não o vai esquecer por muito tempo.

“Gente do Milénio”, de J.G. Ballard (Quetzal)
O futuro segundo um dos nomes fortes da literatura inglesa contemporânea. Ballard aborda dois dos seus temas preferidos: o mito dos media e a crise da sociedade da abundância, com a consequente perda de valores. O ponto de partida é uma explosão no aeroporto de Heathrow, em Londres, Inglaterra. Um psicólogo descobre que a ex-mulher está entre as vítimas e começa a investigar o crime. O ponto de chegada é um grupo que incita à revolução da classe média.

“O Silêncio das Carpideiras”, de Miguel Miranda (D. Quixote)
Um excelente livro de Miguel Miranda, o seu quarto romance. O país vive nos tempos da ditadura. Dornelos, uma aldeia do interior, vai ter por perto uma barragem, que a vai deixar submersa. A aldeia assume-se como personagem principal, na luta contra a inundação, contra os reflexos de uma modernidade que nunca desejada. Uma escrita trabalhada, lenta e minuciosa leva-nos na perfeição à vida rural, onde tudo se passa a um ritmo diferente. Um excelente domínio das palavras por parte do autor.

“Alice deste Lado do Espelho”, de Lisa Dierbeck (Teorema)
Uma releitura de “Alice no País das Maravilhas”, de Lewis Carrol.
Uma rapariga de 11 anos cresce num corpo de 16, de seios desenvolvidos e pernas longas, que enfeitiça todos os homens que encontra. Vive em Manhattan, nos Estados Unidos, com uma tia, viciada em cocaína, porque a mãe fugiu para Itália e o pai está internado. Alice atravessa uma fase difícil. Na escola, os miúdos chamam-lhe nomes porque é mais alta que os professores. Só em Nova Iorque, que a olha de outra forma, é popular. Não é criança nem adulta. Encolhe e diminui consoante quem a vê. Num curso de Verão, relaciona-se com um traficante e inicia aí a sua viagem a outro mundo. Ao Inferno.

“Nem Tudo Começa com um Beijo”, de Jorge Araújo e Pedro Sousa Pereira (Oficina do Livro)
Um livro para jovens que pisca o olho aos adultos, onde se pode morrer de amor. Fio Maravilha e Nuvem Maria são os nomes bizarros das personagens centrais desta obra de ficção. Mas também há Gelatina e Domingo. E Gelatina tem um segredo, que só Domingo conhece. O mundo (a casa) divide-se em “subterrâneos” (cave) e “prédios com vista sobre a solidão” (sótão) e o caminho entre os dois universos é feito pelos esgotos. Um terramoto torna-os mais próximos.

“O Anjo de Bagdade”, de Paul-Loup Sulitzer (Europa-América)
Um brilhante homem de negócios espera que os soldados norte-americanos cheguem ao Iraque para estabelecer a democracia. Mas Bagdad nunca mais será a mesma. A cidade fica a saque e sofre com a ocupação estrangeira. Mas Michel Samara não acredita na submissão e idealiza um plano maquiavélico para estragar os planos de George W. Bush. Sulitzer, que junta à escrita a profissão de economista, sentiu-se como peixe na água ao escrever este livro.